A morte de um paciente dentro da Clínica Terapêutica Pró-Vida, em Cuiabá, segue cercada de graves suspeitas e revelou uma série de irregularidades no funcionamento da unidade. Em entrevista coletiva, nesta segunda-feira (1º), o delegado Michael Paes, da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), afirmou que não há dúvidas de que a vítima morreu em decorrência da forma como foi contida dentro da instituição.
O caso veio à tona na manhã de domingo (31), quando a Polícia Civil foi acionada para atender uma ocorrência inicialmente registrada como suicídio por enforcamento. No entanto, a versão apresentada pelos responsáveis pela clínica foi descartada ainda durante os primeiros levantamentos periciais.
Segundo o delegado, a análise realizada pela Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) apontou que não existiam sinais compatíveis com um enforcamento. “Uma coisa eu não tenho dúvida: suicídio da forma que foi narrado não aconteceu”, afirmou Michael Paes.
De acordo com as investigações, um dos internos da clínica, que exercia a função de plantonista, acabou preso em flagrante por homicídio e fraude processual após admitir que alterou a cena para tentar simular um suicídio. Durante o interrogatório, o suspeito confessou que amarrou a vítima com os braços para trás durante a madrugada, alegando que tentava controlar um surto comportamental.
Conforme o delegado, o homem relatou que deixou o paciente imobilizado e, ao retornar horas depois, encontrou a vítima sem vida. “A vítima foi amarrada com os braços para trás e deixada no chão. Ele próprio confessou isso”, destacou.
Apesar de negar que tenha matado o paciente de forma intencional, a Polícia Civil entende que a contenção aplicada foi determinante para o óbito. “Eu não tenho dúvida nenhuma que essa pessoa está morta em razão do tratamento que foi dado a ela”, declarou o delegado.
Após constatar a morte do paciente, o suspeito teria utilizado uma corda para criar um cenário falso de enforcamento. A polícia apurou ainda que outros internos foram orientados a confirmar a versão inventada. “A fraude foi uma tentativa de enganar os órgãos de persecução penal para simular um suicídio”, explicou Michael Paes.
Um dos pacientes ouvidos pela investigação relatou que recebeu orientação para afirmar que ajudou a retirar o corpo de uma suposta tentativa de enforcamento.
Durante a inspeção realizada na clínica, a Polícia Civil encontrou um cenário considerado preocupante. Segundo Michael Paes, nenhum profissional da área da saúde estava presente na unidade durante a ocorrência. “Não havia nenhuma enfermeira, psicólogo, assistente social ou terapeuta no local. A gente não viu ninguém da área da saúde.”
O delegado informou que o responsável pelo plantão era um ex-interno da própria instituição. “O responsável pelo plantão era um ex-interno que cuidava de mais de 50 pessoas dentro da clínica.”
As investigações também identificaram que o local onde a vítima estava funcionava como uma espécie de isolamento para internos considerados problemáticos. “Esse quarto funcionava praticamente como uma cela de punição. As pessoas ficavam trancadas durante a noite e a chave permanecia apenas com o plantonista.”
No ambiente, segundo a polícia, permaneciam pessoas com transtornos psiquiátricos severos, incluindo pacientes diagnosticados com esquizofrenia.
A vítima, conforme relatos colhidos pela investigação, também sofria de esquizofrenia.
Apesar das irregularidades encontradas, Michael Paes afirmou que, neste momento, não há elementos para classificar a instituição como clandestina. “Eu não acho que se trata de uma clínica clandestina. O próprio gerente informou que existem convênios com prefeituras para internação de pacientes.”
Contudo, o delegado ressaltou que os órgãos fiscalizadores deverão ser comunicados para apurar as condições de funcionamento da unidade. “O que ocorre na prática ali é algo que precisa ser verificado pelos órgãos competentes.”
A Polícia Civil aguarda laudos periciais e depoimentos complementares para esclarecer a dinâmica exata da morte e identificar possíveis responsabilidades de outras pessoas ligadas à administração da clínica.
A Politec realizou os trabalhos de perícia. O corpo foi encaminhado ao IML para exames de necropsia.

















