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Iniciação sexual dos meninos: quando a primeira vez não é escolha

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“Levaram uma garota de programa na minha casa e eu tinha obrigação de fazer sexo. Foi difícil, não foi legal, foi ruim, foi traumático.”

Este é um trecho da entrevista que o ator Bruno Gagliasso concedeu ao videocast Conversa vai, Conversa vem, apresentado pela jornalista Maria Fortuna na semana passada.

A história dele me remeteu a uma fala do meu pai, que viveu sua adolescência em meados da década de 1940.

Vale dizer que o termo adolescência ganhou força e virou um fenômeno cultural global nas décadas de 1940 e 1950, embalado pela criação do mercado de consumo jovem.

Ou seja, meu pai era um mini adulto na zona rural de Minas Gerais décadas atrás. Ele não viveu de acordo com as mudanças sociais que acompanharam o termo.

Ele e seus colegas tiveram sua iniciação sexual com uma ilustre “dama” conhecida por seu apreço aos rapazolas da localidade que estavam precisando “virar homens”. Detalhe: ele e seus colegas foram levados pelos respectivos pais.

Eu me lembro de certa vez ele dizendo como aquilo ficou na cabeça dele por meses. No princípio parecia normal, pois era assim mesmo. Só na maturidade ele entendeu a dimensão daquilo na vida dele.

Pagar uma mulher para fazer sexo com um garoto não é iniciação, é violência.

Muito se fala da violência sexual contra as meninas. É justo e preciso que tal pauta seja repercutida, mas muito pouco é dito quando o assunto se estende aos meninos.

Em sua entrevista, o ator também comparou esse ato com o consumo precoce de pornografia.

“Tive que reaprender a fazer sexo porque eu achava que era o que eu via nos filmes, na pornografia. Eu vejo isso hoje como traumático.”

Ana Cristina Souza, acadêmica da Fiocruz, estuda esse tema pouco discutido no Brasil e reforça exatamente o que Bruno Gagliasso sentiu e falou.

Ela fala em sexualidade roubada e no impacto negativo do conteúdo pornográfico na construção da ideia de sexo nas crianças e adolescentes. Ela reforça que estupro coletivo e incesto são alguns dos temas mais disseminados entre adolescentes que consomem pornografia na internet.

Esse tipo de conteúdo aumenta a misoginia. Na pornografia, o corpo feminino existe apenas para satisfazer o prazer sexual masculino e visa manter a subordinação feminina ao domínio masculino, o que pode alimentar a ideia de superioridade dos homens.

A juíza da vara de infância e juventude do TJRJ, Vanessa Cavalieri, afirma que os casos de estupros coletivos cometidos entre adolescentes em escolas são mais comuns do que se possa imaginar. Algo que chama a atenção é que o crime é planejado e sua execução é filmada. Ao terem acesso às imagens, ela e sua equipe perceberam que os envolvidos reproduzem claramente uma cena que viram em um vídeo de sexo explícito ao qual eles não deveriam sequer ter acesso.

A exposição precoce de crianças e jovens à pornografia pode levar a problemas de saúde mental, sexismo e objetificação, violência sexual e outros resultados negativos. Entre outros riscos, quando as crianças veem pornografia que retrata atos abusivos e misóginos, elas podem passar a ver esse comportamento como normal e aceitável.

A iniciação sexual dos meninos não deveria passar por tal conteúdo, muito menos por tal situação. Como mãe de meninos, tenho total repúdio a essa prática naturalizada e disseminada no Brasil.

Para Ana Julia Bridges, pesquisadora especialista sobre o tema no Programa de Especialistas da Fulbright, nos Estados Unidos, discutir pornografia não significa defender censura, mas compreender como determinadas narrativas e padrões de sexualidade podem influenciar percepções sobre consentimento, poder e violência.

Como professora e mãe, faço o alerta: nossas crianças estão sendo apresentadas a este universo cada vez mais cedo.

É muito perceptível quando eles começam a consumir conteúdo adulto. Os gestos mudam, as piadinhas maldosas aparecem e o celular fica cada vez mais protegido dos pais.

Geralmente, os amigos mais velhos mostram esse tipo de conteúdo aos mais novos porque eles também foram apresentados pelo irmão mais velho, por um primo, um colega de time e, por vezes, pelo próprio pai.

Não se iludam com “meu filho é criado na igreja”, “ele não faz esse tipo de coisa”, “eu conheço meu filho”… A curiosidade quanto ao sexo e ao próprio corpo é absolutamente normal e, por isso mesmo, não deve ser tratada como tabu.

O que proponho é um olhar mais cuidadoso, mais humano e menos invasivo numa fase como a infância, que carrega uma inocência bonita — e menos violento também quando nos referimos aos adolescentes.

Durante muito tempo, chamamos de tradição aquilo que hoje reconhecemos como violência. Talvez esteja na hora de olhar para os meninos com a mesma sensibilidade com que aprendemos a olhar para as meninas.

Nossos filhos não precisam de pressão para provar masculinidade, nem de pornografia para aprender sobre sexualidade. Eles precisam de adultos dispostos a conversar, orientar e acolher suas dúvidas sem vergonha e sem censura.

Todo indivíduo merece que sua sexualidade seja construída com respeito, informação e liberdade de escolha, nunca por meio da coerção, da exposição ou do trauma.

Fonte: Jornal O Globo / Videocast Conversa vai, Conversa vem

Christiane Indaiá Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura, UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II) Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam Certificada Cambridge

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