Provavelmente a maior tragédia da obsessão pelo corpo perfeito seja o fato de ela não nascer apenas da vaidade, mas da necessidade humana de pertencimento. Muita gente não está tentando apenas mudar o próprio corpo; está tentando ser aceita, admirada, validada e suficiente em um mundo que transformou aparência em valor social.
A morte precoce do influenciador Gabriel Ganley reacendeu uma conversa que vai muito além da estética.
Segundo o atestado de óbito, ele sofreu uma morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica, quadro que pode ter causa genética, mas que também pode estar relacionado ao uso de anabolizantes.
Gabriel não começou no esporte utilizando esteroides anabolizantes. No início, ele praticava o chamado fisiculturismo natural, prática que promove resultados sem o uso desse tipo de substância, mas, como vimos, o hábito se tornou cada vez mais comum e ele falava sobre isso abertamente em suas redes sociais.
“A grande questão é que, quando se usa um esteroide anabolizante, ele não anaboliza apenas o músculo da perna ou do braço; ele anaboliza também a musculatura cardíaca. E ainda há um agravante, porque o esteroide anabolizante aumenta o número de células vermelhas e, com isso, ele lentifica a velocidade da circulação desse sangue”, diz Andrea Fioretti, coordenadora do Departamento de Endocrinologia do Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia.
Na semana passada, escrevi sobre nossa relação com o espelho e como comentários a respeito da nossa imagem e dos outros podem moldar para sempre a percepção que temos de nós mesmos desde a infância.
Todos nós, em algum momento da vida, já sentimos um forte desejo de sermos parte de um grupo, de um modelo comportamental, social e físico.
No caso de Gabriel, havia um esporte, patrocinadores, seguidores e campeonatos envolvidos. Havia pressão por performance. Ele não é o primeiro e não será o último a perder a vida nessas condições.
Minha provocação é: até onde estamos dispostos a ir para pertencer a um grupo?
Em seu livro O Animal Social, o psicólogo americano Elliot Aronson faz a seguinte observação: “Para garantir a aceitação de um grupo, os indivíduos frequentemente alteram suas opiniões, roupas e comportamentos. Isso acontece porque a rejeição gera dor psicológica real.”
E dói mesmo. Quantas vezes você e eu sentimos essa dor ao longo da vida? Reflita.
Na infância e na adolescência, nossa imaturidade faz com que esse pertencimento seja ainda mais importante. Fazer parte de um grupo que nos aceite é fundamental para nossa existência. Em grupo, nos sentimos validados, seguros e parte de um todo.
Mais do que discutir escolhas individuais, talvez essa seja uma oportunidade para refletirmos sobre a pressão estética que atravessa a vida de tantas pessoas atualmente.
Vivemos em uma época em que corpos deixaram de ser apenas corpos. Eles se tornaram cartão de visita, fonte de renda, oportunidade para a fama, validação social, meta pessoal e, muitas vezes, medida de valor.
Todos os dias somos bombardeados por imagens de físicos considerados perfeitos, rotinas extremas de treino, transformações aceleradas e padrões quase impossíveis de alcançar naturalmente e, nesse cenário, muita gente passa a acreditar que precisa modificar o próprio corpo a qualquer custo para se sentir aceita, admirada ou suficiente.
O problema é que raramente falamos sobre o peso emocional que existe por trás dessa busca.
Existe um cansaço silencioso em tentar corresponder a um ideal o tempo inteiro. Existe sofrimento em nunca se sentir bom o bastante diante do espelho. E existe também um risco perigoso quando saúde, autoestima e aparência deixam de caminhar juntas.
Isso não significa demonizar procedimentos, musculação ou cuidados estéticos. O cuidado com o corpo é algo importante e pode ser saudável e prazeroso.
A reflexão talvez esteja nos excessos, na comparação constante e na ideia de que o corpo perfeito finalmente trará pertencimento, amor ou felicidade.
Que vazio é esse que tentamos preencher através do nosso corpo? Por que aceitamos padrões desumanos como meta, como objetivo de vida ou como profissão? Por que cultuar o que é inalcançável de forma saudável?
Nem todo excesso nasce da futilidade. Às vezes ele nasce da dor de não se sentir suficiente, da necessidade de aprovação ou do medo silencioso de ficar de fora.
O problema é quando o corpo deixa de ser casa e vira cobrança permanente.
Nenhum padrão, prêmio, curtida ou reconhecimento deveria valer mais do que a saúde, a paz ou a vida de alguém.
Fontes: Rádio Agência
G1
Christiane Indaiá – Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas






















