Nem todo comentário sobre aparência é elogio. E, muitas vezes, o “foi sem querer” traz um grande impacto na autoestima das pessoas.
Desde criança, ouvimos dentro da nossa própria casa como o corpo de alguém não está de acordo com as expectativas de quem tece esse tipo de comentário. Pode ser que o assunto surja por preocupação com a saúde de alguém, mas nem sempre é assim. Alguns comentários são gratuitos e maldosos.
Às vezes, o alvo nem está em casa, mas o que é dito sobre o corpo de alguém atinge outra pessoa, porque ela se enxerga exatamente como aquela.
Quem nunca fez um comentário negativo sobre corpos alheios que atire a primeira pedra. Nós comentamos com tanta naturalidade que esquecemos que aquele corpo pertence a uma pessoa.
Eu proponho uma reflexão a partir deste texto.
Pense comigo: quando os comentários são feitos pelos próprios pais, quais são os efeitos deles na construção da autoestima das crianças?
A consciência do corpo ideal começa cedo e reflete a experiência das crianças com o mundo ao seu redor.
Uma imagem corporal negativa na infância também tende a persistir na adolescência.
Uma pesquisa recente realizada com adultos pela Fundação Butterfly, que oferece suporte baseado em evidências para transtornos alimentares na Austrália, descobriu que, entre aqueles que desenvolveram insatisfação corporal cedo, 93% disseram que ela piorou durante a adolescência.
O perigo da provocação
Muitos pais podem ficar chocados ao saber que suas próprias inseguranças podem ter esse tipo de impacto. Alguns membros da família também ampliam esse efeito por meio de comentários depreciativos.
Em um estudo sobre os efeitos das provocações feitas por familiares na insatisfação corporal e nos distúrbios alimentares, 23% dos participantes relataram provocações relacionadas à aparência por um dos pais, e 12% afirmaram ter sido provocados por um dos pais por estarem acima do peso.
Outra pesquisa com crianças de sete a oito anos mostrou que os comentários das mães sobre peso e tamanho corporal têm sido associados a distúrbios no comportamento alimentar dos filhos.
Da mesma forma, meninas “cujas mães, pais e amigos as encorajaram a perder peso e ser magras” eram mais propensas a endossar crenças negativas sobre o peso dos outros.
Até mulheres adultas ainda podem sentir a dor do estigma do peso vivenciado na infância, constatou um estudo, com as participantes indicando sobretudo suas mães como fonte de tal estigma.
Foi “a coisa mais dolorosa que já vivi”, disse uma participante.
O estudo cita relatos de mulheres em seus 40, 50 e 60 anos, que descreveram memórias vívidas de terem sido envergonhadas por suas famílias por causa do peso e a profunda tristeza que ainda sentiam.
“As constantes críticas da minha mãe sobre meu peso levaram a problemas de autoconfiança com os quais lutei toda a minha vida”, contou uma participante.
“Meu pai e meus irmãos costumavam cantarolar a música ‘Baby Elephant Walk’ (‘bebê elefante andando’, em tradução literal) quando eu tinha entre oito e 11 anos”, disse outra.
“Ainda tenho problemas para comer na frente da minha mãe”, afirmou uma participante de 49 anos.
“Ela sempre criticou minha alimentação e meu peso desde que eu tinha seis anos. Talvez até antes.”
“Meus sentimentos em relação à minha falta de atratividade provavelmente nunca irão embora e estiveram comigo por toda a minha vida, mesmo quando eu era mais magra. É muito doloroso.”
Há uma razão pela qual a influência dos pais é tão forte
Rachel Rodgers, psicóloga da Northeastern University, nos EUA, diz que, quando um pai ou uma mãe está preocupado com sua própria imagem corporal, tende a reproduzir comportamentos que mostram que “isso é importante”.
“Mesmo que não mencionem a aparência física da criança, eles ainda estão agindo de uma maneira que sugere à criança: ‘Isso é algo que me incomoda, isso é algo que me preocupa’, e as crianças percebem isso.”
Além disso, muitos pais tendem a comentar sobre o que as crianças estão comendo, vestindo ou sobre sua aparência, muitas vezes de maneira bem-intencionada, e isso pode aumentar a preocupação com a aparência e o peso.
A “idealização da magreza” leva as crianças a acreditar que seu “valor social está condicionado à sua aparência física, e isso vai levá-las a investir nela em termos de autoestima, assim como seu tempo e energia”, diz Rodgers.
É claro que os pais não são a única fonte de estigma corporal, especialmente à medida que a criança cresce.
Seus colegas e a mídia tendem a assumir um papel maior com o passar do tempo.
Até bonecas têm influência
Um vídeo da influenciadora Bruna Renovato viralizou nas redes na semana passada, pois, nele, ela chama a atenção para o fato de uma coleção de bonecas mostrar uma imagem de como aquela boneca era antes de passar por harmonização facial e lipoescultura corporal.
Particularmente, acho um absurdo! Eu já tinha minhas críticas ao padrão inalcançável da boneca Barbie. Imagine agora?
Eu não tenho filhas e penso que não permitiria, se as tivesse, que consumissem tal brinquedo. Verdadeiras aberrações estéticas sendo vendidas como padrão de beleza às meninas. Não bastasse a hipervalorização da magreza e dos filtros nas redes sociais, agora elas estão bombardeadas por “corpos” e “rostos” possíveis de serem alcançados exclusivamente por meio de procedimentos cirúrgicos e preenchimentos.
Conheço mulheres que eram lindíssimas e que hoje estão irreconhecíveis por acreditarem na visão distorcida que tinham de si mesmas. Ainda existem aquelas que nunca vimos, mas, só de olhar, sabemos que foram totalmente modificadas e, infelizmente, também aquelas que “sonham” em ser a própria quimera da estética contemporânea.
Eu não faço campanha contra procedimentos, mas existe uma diferença gritante entre beleza e aberração.
As meninas correm mais riscos?
Embora as meninas muitas vezes pareçam ser mais afetadas por preocupações com a imagem corporal, pesquisas recentes com meninos mostram um nível semelhante de insatisfação, embora seus ideais corporais tendam a ser um pouco diferentes, com foco maior em querer ser musculoso, por exemplo.
Sinais de alerta na autoestima infantil
A insatisfação com o próprio corpo pode ser evidenciada por meio de comentários negativos sobre si:
“Eu sou feia.”
“Queria ser diferente.”
“Ninguém gosta de mim do jeito que sou.”
Normalmente, são falas acompanhadas da vontade da criança de mudar os pontos que a incomodam, como peso, altura, cabelo e até mesmo tom de pele.
Passar muito tempo na frente do espelho ou evitá-lo, ficar obcecado com detalhes específicos sobre si e pedir constantemente a opinião dos outros sobre a própria aparência também são sinais de que a criança pode estar com dificuldade para estabelecer uma relação saudável com o próprio corpo.
Vivemos uma época em que até brinquedos infantis reforçam padrões inalcançáveis, enquanto adultos seguem normalizando comentários destrutivos sobre aparência. Depois, nos espantamos com crianças inseguras, adolescentes adoecidos e adultos incapazes de se olhar com gentileza. O problema talvez nunca tenha sido apenas estética. O problema é o quanto ensinamos pessoas a acreditarem que seu valor depende daquilo que veem no espelho.
Nenhuma criança deveria crescer acreditando que precisa mudar o próprio corpo para merecer amor, aceitação ou pertencimento, e nenhum adulto deveria carregar até a velhice a dor de frases ouvidas na infância. Corpos mudam, mas algumas palavras permanecem por uma vida inteira.
Fontes: BBC News Brasil e Quindim.com.br
Christiane Indaiá
Graduada em Letras — Português, Inglês e Literatura pela UNIVALE — Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa, com 24 anos de experiência em cursos livres e no ensino fundamental I e II
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas






















