Em depoimento na Comissão Processante que investiga o prefeito Emanuel Pinheiro, a então servidora da pasta de Saúde do Município Hellen Cristina da Silva culpou a indústria farmacêutica pelos altos preços praticados durante a pandemia. Em conversa com jornalistas, ela disse ainda que se os vereadores estivessem na “ponta”, fiscalizando as ações na época da pandemia da Covid-19, talvez não tivessem ocorrido as operações policiais por conta de supostos desvios de recursos. O prefeito é alvo da Comissão por ter sido apontado pelo Ministério Público como o suposto chefe da organização que desviou dinheiro da Secretaria Municipal de Saúde.
“Eu até citei aqui que, se caso os vereadores estivessem lá na ponta, na Secretaria, junto com a gente, ou dentro do próprio CDMIC [Centro de Distribuição de Medicamentos], vendo o que estava acontecendo, fiscalizando mais próximo, mais de perto, talvez não seria tão grande da forma que foi”, disse Hellen aos jornalistas na tarde desta segunda-feira (13/5). Segundo Hellen, tal fiscalização seria necessária devido ao volume de recursos que chegou ao município por conta da pandemia.
Hellen foi convocada pela Comissão porque ela trabalhava no setor de cotação e foi apontada como a responsável pela confecção dos mapas de apuração de preços, nos quais teria sido identificada a ocorrência de sobpreço, indicando um superfaturamento. Ela trabalhou no setor de 2019 até setembro de 2020,. quando foi deflagrada a Operação Overpriced. Hellen acabou sendo absolvida no processo.
A oitiva foi prestada aos membros da Comissão, presidida pelo vereador Kero Kero, e composta ainda por Rogério Varanda (relator) e Eduardo Magalhães (membro). Hellen disse ainda que durante a pandemia a indústria farmacêutica e as distribuidoras de medicamentos cobraram os preços que queriam, como no caso da ivermectina, cujo preço pago na ocasião pelo município motivou denúncias de superfaturamento. O uso do remédio era defendido pelo ex-presidente Bolsonaro para tratamento contra a Covid-19.
“As empresas que vendem para a prefeitura ou qualquer órgão público, o preço que eles vendem para nós, que mandam para nós, não é um preço de mercado, é um preço que eles mandam, que acham que devem mandar. Eu acordei fazendo parte de um grupo de crime organizado, me assustei muito com a situação, porque na época da pandemia, ninguém ouvia falar em ivermectina, ninguém sabia se era remédio de gato, se era remédio de cachorro, para que servia. De repente, a ivermectina virou um remédio igual ouro e nós compramos na época caixa de ivermectina com quatro comprimidos por 11,90 e isso diz que deu um superfaturamento monstruoso sendo que a indústria de ivermectina, a distribuidora de medicamentos na pandemia eles colocaram o valor que eles quiseram”.
Ela disse ainda que na época, na pandemia, não se achava a ivermectina no mercado e os preços cobrados eram absurdos.
“Se você olhar no mês de julho, até nas farmácias de manipulação você comprava a ivermectina a 70, 80, 150 reais, a 200 reais. Não existia este remédio para a compra de jeito nenhum e aí, por questão disso, por questão de denúncia de certos vereadores, houve este [a denúncia] superfaturamento”.
Hellen disse ainda que ficou muito feliz em poder dar seu depoimento e que ficou com a “alma lavada”.
“Estou muito feliz em poder estar aqui hoje, em nome de trocentos servidores da saúde, que passaram a mesma situação que eu passei. Acredito que fomos vítimas de várias situações, ainda mais na pandemia que, infelizmente, na época da pandemia, os valores foram lá em cima, tudo muito alto”.
Secretários faltam às oitivas
Na tarde desta segunda, além de Hellen, estava previsto o comparecimento do ex-secretário de Saúde Célio Rodrigues e do ex-adjunto da pasta Milton Corrêa. Os dois foram arrolados na defesa de Emanuel Pinheiro, mas não compareceram, alegando estarem em viagem e pediram para que seja marcada outra data. Junto com Emanuel, eles são investigados na Operação Curare.
O presidente da Comissão Processante, Wilson Kero Kero, vai marcar nova data para que Célio e Milton sejam ouvidos. O vereador Dilemário Alencar chegou a propor que os dois fossem conduzidos de forma coercitiva, mas Kero Kero disse que a Procuradoria Jurídica da Câmara teria que se manifestar primeiro por meio de um parecer indicando se existe base legal para tal medida.
A Comissão Processante contra Emanuel Pinheiro foi aberta a partir de um requerimento proposto pelo vereador Fellipe Corrêa, com base no MPMT que apontou Emanuel Pinheiro como o chefe de um grupo criminoso que desviou milhões de reais da Saúde. O prazo final para a apresentação do relatório é no dia 5 de junho.
Veja as datas das próximas oitivas
15 de maio
Luis Antonio Possa de Carvalho: ex-secretário Municipal de Saúde de Cuiabá; alvo da Operação Colusão e Overpriced
Dalila Roque Ribeiro: ex-secretária-adjunto de Saúde de Cuiabá
Wellin Marcio Nascimento
17 de maio
Lucas Beresa de Paula: : advogado
Matteus Beresa de Paula Macedo: advogado
20 de maio
Gilmar Cardoso: ex-secretário-adjunto de Saúde de Cuiabá;
Benedito Oscar Fernandes de Campos: diretor técnico da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá; alvo da Operação Smartdog
22 de maio
Prefeito Emanuel Pinheiro
















