Com preços menores para soja e milho, crédito mais restrito e avanço das recuperações judiciais, produtores enfrentam um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos no agronegócio brasileiro
Responsável por liderar a produção nacional de grãos, Mato Grosso também se tornou o retrato de uma crise que avança silenciosamente pelo agronegócio brasileiro. Nos últimos anos, a combinação entre preços menores para soja e milho, custos elevados de produção e dificuldades de financiamento tem pressionado produtores rurais, levando muitos deles a renegociar dívidas, encerrar operações ou recorrer à recuperação judicial.
Nesse período, a combinação entre custos elevados de produção, juros mais altos, restrição ao crédito e a queda nos preços da soja e do milho reduziu significativamente as margens de lucro no campo. O cenário atingiu especialmente estados com forte vocação agrícola, como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, onde o impacto financeiro tem se refletido no aumento da inadimplência e no avanço dos pedidos de recuperação judicial.
O aumento expressivo dos processos levou inclusive o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Ministério da Agricultura a criarem diretrizes e mecanismos de monitoramento para os pedidos de recuperação judicial envolvendo produtores rurais, diante da escalada da judicialização no setor.
Além do endividamento, a queda dos preços das principais commodities agrícolas tem agravado a situação financeira de muitos produtores. Levantamentos recentes do mercado mostram retração nas cotações da soja e do milho ao longo dos últimos meses, pressionadas pelo aumento da oferta global, pela valorização do real frente ao dólar em determinados períodos e pela desaceleração da demanda internacional.
Desde 2022, o Brasil convive com uma taxa básica de juros em patamares historicamente elevados, com a Selic acima de 12% ao ano em longos períodos e chegando a 15% ao ano entre 2025 e o início de 2026. Mesmo após o início dos cortes, a taxa ainda permanecia em 14,5% ao ano em 2026, mantendo o custo financeiro em nível muito superior à rentabilidade de diversas operações rurais. Para produtores que investiram em expansão, aquisição de máquinas, abertura de áreas, custeio agrícola ou capital de giro por meio de crédito pós-fixado, esse cenário multiplicou o peso das dívidas e reduziu drasticamente a capacidade de pagamento.
Esse ambiente ajuda a explicar por que a crise alcançou não apenas produtores individuais, mas também grandes companhias e redes nacionais do agronegócio. A AgroGalaxy, uma das principais distribuidoras de insumos agrícolas do país, ingressou em recuperação judicial em 2024 com passivo bilionário. A Lavoro, outra gigante do setor de distribuição de insumos, também precisou recorrer a uma recuperação extrajudicial para reestruturar bilhões de reais em dívidas com fornecedores.
O avanço das dificuldades financeiras no campo já se reflete em casos de grande repercussão também no Centro-Oeste. Em Mato Grosso, o Grupo Safras, com atuação nos segmentos de armazenagem, agroindústria e biocombustíveis, teve o processamento de sua recuperação judicial deferido pela Justiça em 2025. O grupo busca reestruturar um passivo estimado entre R$ 1,78 bilhão e R$ 2,2 bilhões, envolvendo dezenas de empresas e produtores rurais ligados à operação.
Mais recentemente, em janeiro de 2026, a Justiça também deferiu a recuperação judicial do Grupo Forte Agro, de Rondonópolis (MT). A empresa atua na comercialização de máquinas agrícolas, insumos, produção de grãos e pecuária e informou um passivo próximo de R$ 260 milhões. A deterioração do crédito rural e os problemas de fluxo de caixa enfrentados pelos produtores estão entre os fatores que impulsionam o aumento dos pedidos de recuperação judicial em toda a cadeia do agronegócio.
O cenário se repete em diferentes estados da região. Dados da Serasa Experian mostram que Mato Grosso liderou o ranking nacional de recuperações judiciais ligadas ao agronegócio em 2025, com 332 solicitações. Goiás aparece na sequência com 296 pedidos, enquanto Mato Grosso do Sul registrou 216 requerimentos, evidenciando que a crise financeira tem alcançado produtores rurais e empresas de toda a região Centro-Oeste.
Foi em meio a esse cenário de retração econômica no campo que o empresário e produtor rural José Romanzzini, de Lucas do Rio Verde (MT), vivenciou na prática os desafios enfrentados por milhares de agricultores brasileiros.
Há cerca de três anos, após uma trajetória consolidada também no setor imobiliário, ele decidiu encerrar sua participação operacional nas atividades de incorporação para dedicar-se integralmente ao agronegócio. A expectativa era acompanhar uma recuperação do mercado agrícola e continuar investindo na atividade rural, mas a realidade encontrada nos últimos anos foi marcada pela deterioração das condições econômicas do setor.
“Estou no mercado há muitos anos e posso dizer que o agronegócio atravessa um dos momentos mais desafiadores que já vi. Com a idade chegando, entendi que era o momento de encerrar completamente minha participação na operação incorporadora e concentrar minhas energias naquilo que sempre foi uma paixão: o agronegócio. Há cerca de três anos, passei a me dedicar integralmente à fazenda. Mesmo com um cenário difícil em Mato Grosso, segui trabalhando com seriedade e confiança, acreditando que haveria uma recuperação dos preços da soja e uma melhora nas condições do mercado, mas isso não aconteceu”, aponta.
De acordo com o empresário, o cenário ruim o levou a parar as atividades para reestruturar passivo, “Depois de enfrentar sucessivas dificuldades e acompanhar a perda de rentabilidade da atividade, fui obrigado a encerrar a operação da fazenda. Ainda assim, mantenho a tranquilidade e a convicção de que o correto é assumir as responsabilidades. Estou de cabeça erguida e vou trabalhar para honrar todos os compromissos assumidos. Não pretendo seguir o caminho que muitos têm adotado no mercado”, afirma.
A trajetória de José reflete a realidade enfrentada por diversos produtores do Centro-Oeste. Muitos investiram na ampliação da produção durante o período de alta das commodities e, posteriormente, passaram a conviver com um ambiente de crédito mais restrito, custos ainda elevados e receitas menores. Segundo dados do setor, a deterioração do fluxo de caixa tornou-se um dos principais fatores por trás do crescimento das recuperações judiciais no campo.
O impacto da crise já alcança diferentes elos da cadeia produtiva, desde fornecedores de insumos até revendas de máquinas e implementos agrícolas. Em algumas regiões, a renegociação de dívidas tornou-se prática recorrente entre produtores que buscam preservar a atividade e manter a capacidade produtiva.





















