Polarização Tóxica: O Triunfo da Torcida Sobre a Razão
A polarização política não é um problema em si. Em qualquer democracia saudável existem grupos com visões diferentes sobre economia, segurança pública, educação, costumes e o papel do Estado. A política, por natureza, envolve disputas de interesses, projetos de poder e concepções distintas sobre o futuro da sociedade. Portanto, divergências são normais e até necessárias.
O problema surge quando a polarização deixa de ser política e passa a ser emocional, tribal e irracional. É nesse ponto que ela se torna tóxica.
Nos últimos anos, especialmente com o fortalecimento do lulopetismo e do bolsonarismo, o Brasil passou a viver uma forma de polarização que ultrapassa o campo das ideias e invade o terreno da idolatria e do fanatismo. Não se discute mais propostas, mas pessoas. Não se analisam mais fatos, mas narrativas. O adversário político deixa de ser alguém com opiniões diferentes e passa a ser tratado como inimigo a ser destruído.
As consequências estão por toda parte: disseminação de fake news, agressividade crescente nas redes sociais, rompimento de amizades, conflitos familiares e, em casos extremos, episódios de violência motivados por disputas políticas.
Mas talvez o aspecto mais preocupante dessa polarização seja a destruição da coerência moral.
Um exemplo claro pode ser observado na reação de muitos militantes aos discursos inflamados de suas lideranças. Quando o então presidente Jair Bolsonaro utilizava expressões como “metralhar a petralhada”, setores da esquerda reagiam com indignação, classificando corretamente a fala como incompatível com o espírito democrático. Entretanto, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz declarações agressivas dirigidas a Bolsonaro, muitos desses mesmos críticos optam pelo silêncio ou pela relativização.
O fenômeno inverso também acontece. Muitos bolsonaristas que aplaudiram ou minimizaram discursos agressivos contra petistas demonstram profunda indignação quando declarações semelhantes partem do campo adversário.
O critério deixa de ser o conteúdo da fala e passa a ser a identidade de quem a profere. Se é o meu líder, eu justifico. Se é o líder do outro lado, eu condeno. A ética é substituída pela conveniência.
Essa lógica produz um ambiente intelectualmente empobrecido. Pessoas inteligentes passam a defender absurdos apenas porque foram ditos pelo grupo ao qual pertencem. A busca pela verdade é substituída pela necessidade de vencer a discussão. A reflexão cede espaço à militância.
A polarização tóxica transforma cidadãos em torcedores. E torcedores não precisam ser coerentes; precisam apenas defender seu time.
Enquanto isso, cresce o sentimento de abandono entre aqueles que não se identificam integralmente com nenhum dos polos. São brasileiros que desejam discutir problemas reais, avaliar governos com equilíbrio e criticar erros independentemente de quem os cometa. Pessoas que entendem que a democracia exige vigilância permanente sobre todos os governantes, e não apenas sobre os adversários.
Talvez seja justamente esse eleitor moderado, sóbrio e racional o mais órfão da política brasileira atual. Diante de um cenário dominado por paixões extremadas, ele observa o debate público se degradar e frequentemente chega à conclusão de que, nas próximas eleições, não encontrará um candidato que realmente o represente.
A democracia precisa de divergências, mas não sobrevive sem bom senso. Quando a identidade política se torna mais importante que a verdade, a polarização deixa de fortalecer a democracia e passa a corroê-la por dentro. E nesse processo, todos perdem.
*João Edisom de Souza é analista político e professor universitário.




















