Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

A violência das palavras

*Por João Edisom de Souza

publicidade

A democracia nunca foi construída sobre unanimidades. Ela floresce justamente na convivência entre diferentes, na disputa de ideias e na capacidade de transformar divergências em soluções para o bem comum. Quando a política abandona esse caminho e faz da ofensa seu principal instrumento de comunicação, não são apenas os adversários que saem feridos. É a própria sociedade que adoece.

O Brasil assiste, há alguns anos, a uma escalada preocupante da agressividade no discurso político. Não se trata de um comportamento exclusivo de um partido, de uma ideologia ou de um líder específico. Da direita à esquerda, passando pelo centro, multiplicam-se declarações em que argumentos cedem espaço a insultos, ironias ofensivas e ataques pessoais. Recentemente, as trocas de acusações entre o senador Wellington Fagundes e o governador Otaviano Pivetta voltaram a evidenciar essa deterioração do debate público. Episódios semelhantes repetem-se diariamente em diferentes esferas da política nacional e internacional.

O problema não está apenas na dureza das críticas, que são próprias da democracia, mas na escolha de uma linguagem que procura desqualificar o outro como pessoa, transformando o adversário em inimigo. Quando isso acontece, desaparece o espaço para o diálogo e instala-se uma lógica de confronto permanente.

A filosofia sempre advertiu sobre o poder da palavra. Aristóteles ensinava que a linguagem distingue o ser humano justamente por permitir a construção do justo e do bem comum. Hannah Arendt lembrava que a política só existe porque diferentes conseguem compartilhar o mesmo espaço público. Quando o respeito desaparece, desaparece também a essência da vida democrática.

A psicologia social demonstra que as palavras moldam comportamentos. Antes de toda violência física, costuma existir uma violência simbólica. Quando líderes recorrem constantemente à humilhação e ao desprezo, criam entre seus seguidores a sensação de que o outro não merece consideração, mas hostilidade. A agressividade verbal, repetida diariamente, normaliza comportamentos que antes seriam inaceitáveis.

É assim que a política deixa de contaminar apenas os parlamentos e invade as famílias, os ambientes de trabalho, as igrejas, as escolas e as redes sociais. Irmãos rompem relações, amizades são desfeitas e desconhecidos tornam-se inimigos apenas porque votam de maneira diferente. O debate político transforma-se em identidade moral: quem pensa diferente deixa de ser um cidadão com outra opinião para tornar-se alguém indigno de respeito.

Nesse ambiente, desaparecem as propostas. Pouco se discute sobre saúde, educação, segurança pública, infraestrutura ou desenvolvimento econômico. O centro da discussão deixa de ser “como resolver os problemas da população” e passa a ser “como destruir politicamente o adversário”. O interesse coletivo é substituído pela lógica da guerra permanente.

A história demonstra que sociedades não se tornam violentas de um dia para o outro. A violência costuma ser precedida pela degradação da linguagem. Quando insultos passam a ser vistos como demonstração de coragem e a humilhação do adversário é celebrada como estratégia política, a convivência democrática começa a perder seus alicerces.

É preciso recordar que líderes públicos exercem enorme influência sobre a sociedade. Suas palavras não permanecem restritas aos palanques ou às redes sociais. Elas ecoam nos lares, moldam comportamentos e ajudam a definir os limites do aceitável. Quanto maior a responsabilidade do cargo, maior deve ser o compromisso com uma linguagem que preserve o respeito, ainda que firme na crítica.

A democracia não exige que pensemos igual. Exige apenas que reconheçamos a legitimidade de quem pensa diferente. O verdadeiro líder não é aquele que coleciona aplausos por ofender seus adversários, mas aquele que convence pela força de seus argumentos e pela qualidade de suas propostas.

Quando as palavras deixam de construir pontes para erguer muros, toda a sociedade paga o preço. E esse preço é alto demais para qualquer democracia que pretenda sobreviver.

*João Edisom de Souza é Analista político e professor universitário.

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade