Há uma semana, o crime de Itumbiara ocupa meu imaginário e, provavelmente, o seu também. Um homem matou os dois filhos e se matou em seguida por não aceitar a separação. A coluna desta semana não é exatamente sobre esse episódio macabro, mas sobre como temos criado nossos meninos há séculos.
Imagine que eu te apresente a um homem e faça a seguinte descrição: mimado, acostumado a ter todas as suas vontades atendidas; transforma amor em obsessão e autodestruição; dono de uma mente que cria e interpreta fatos de modo a justificar sua insegurança e de uma capacidade enorme de criar verdades trágicas para fugir da complexidade do próprio vazio. Imaginou? Creio que você conheça alguém assim: um amigo, um primo, um namorado, um marido, o namorado da amiga…
Agora imagine que o ano é 1899 e o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis, dá vida a um personagem com as mesmas características. Sabe de quem estou falando? Falo de Bentinho, o Dom Casmurro, que passa de menino tímido, dependente e desconhecedor das próprias emoções para um adulto amargurado, inseguro, ciumento, paranoico e possessivo. Bentinho nasceu há 127 anos e era um retrato dos homens de sua época. Mas por que ele ainda está entre nós?
A resposta está na criação dada aos meninos. Enquanto criarmos nossos filhos na base do “engole o choro”, “homem não chora”, “chorar é coisa de menina” e outras baboseiras, vamos continuar criando monstros que matam, que ferem na alma, com a intenção cruel de penalizar o outro por suas frustrações. “Toda emoção não trabalhada vira uma bomba-relógio”, diz o psicanalista Fernando Segredo.
É muito comum atrelarmos “emoções” ao gênero feminino, mas emoções são questões humanas. Faça o seguinte exercício: descreva uma mulher com base nas características que são frequentemente ligadas ao feminino e, depois, um homem descrito apenas com as características consideradas masculinas.
A resposta é unânime: mulheres são amorosas, empáticas, compreensivas, cuidadosas, ternas, afetuosas, sensíveis… e, quando querem nos desmerecer, somos descritas como histéricas, loucas, descompensadas, vulneráveis, choronas… a lista é grande. Os homens são descritos como competitivos, provedores, fortes, viris, desbravadores, produtivos… e, quando emoções consideradas negativas são usadas para descrever o masculino, toda licença parece ser oferecida ao gênero. Características como impulsividade, raiva, agressividade, intolerância e violência são minimizadas porque “homens são assim mesmo”. É mentira!
Todas essas características e emoções nos compõem como seres humanos. É humano sentir raiva, medo, dor existencial, alegria, amor, empatia… A diferença está no modo como ensinamos nossos meninos e meninas a lidar com suas próprias emoções. É violento o que aceitamos como sociedade no modo como os meninos à nossa volta continuam a ser criados. O meu testemunho é diário: meninos de 5, 6 anos reproduzindo as mesmas frases e comportamentos machistas que seus antepassados ouviram em sua criação. É por isso que “Bentinhos” nos cercam 127 anos depois. Um clássico exemplo de violência moral e psicológica contra a mulher.
Em Dom Casmurro, podemos elencar:
* O ciúme usado como ferramenta de controle, causando danos na autoestima da parceira.
* Gaslighting (manipulação da realidade), com o objetivo de fazer a mulher duvidar de si mesma e da realidade dos fatos.
* O isolamento imposto a Capitu quando ele a envia à Europa contra a vontade dela.
* A violência moral ao acusá-la de adultério sem provas e ao questionar a paternidade, para justificar o desprezo pelo filho.
* Violência patrimonial, impossibilitando qualquer liberdade de escolha e autonomia.
Alguma diferença nos dias atuais? Não.
Meninos fortes entendem que:
* Garotos choram, sim.
* Emoções são humanas. Todos temos e podemos aprender a lidar com elas.
* Tarefas domésticas e cuidado com os filhos são funções de homem também.
* Gentileza feminina não é abertura para fazerem o que eles quiserem com as mulheres.
* NÃO é resposta completa e basta por si só.
* Rejeição não é ataque pessoal, e a dor causada por ela passa.
* Aceitar o desejo feminino não é perder status frente aos amigos.
* Insistência é assédio.
Essa conta chegou para todos, mas principalmente para os pais de meninos. Vou deixar aqui alguns exemplos covardes para ilustrar apenas alguns casos de homens que usaram seus próprios filhos para impor violência vicária às suas ex-companheiras. Violência vicária é a violência por substituição: acontece contra outras pessoas, mas com a intenção de atingir a mulher. Neste caso, a agressão é direcionada a filhos, dependentes ou outros parentes da rede de apoio da mulher, justamente para feri-la.
Vale lembrar que, antes disso, outros tipos de violência já haviam sido usados contra suas parceiras.
Março de 2025 – Homem arremessa filho de uma ponte em São Gabriel (RS).
Setembro de 2025 – Pai envenena filho de 4 anos em Maceió.
Janeiro de 2026 – Pai mata filho asfixiado no interior de Mato Grosso.
Fevereiro de 2026 – Homem mata os dois filhos e se mata em Goiás.
Isso não é desespero. É crime covarde!
Se um personagem do século XIX ainda encontra tantos ecos no presente, não é porque a literatura previu o futuro; é porque a educação emocional dos meninos ficou parada no tempo. Evoluímos em tecnologia, discurso, acesso à informação, mas falhamos no básico: ensinar humanidade aos nossos meninos. Educar garotos emocionalmente conscientes é prevenir dor, abuso e tragédia. Um futuro menos violento começa no colo, na conversa, no limite, no direito de sentir e no dever de respeitar. Ignorar isso já provou ser caro demais.
*Christiane Indaiá é professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II); Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam; Certificada Cambridge; Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas.



















