Tenho muito orgulho em contar uma história ótima que aconteceu com meu filho mais velho. Logo que mudamos para Cuiabá, fomos visitar o pai dele no emprego novo e lá, ele, com 2 anos e meio, ganhou uma bala do tipo caramelo, já sem a película plástica.
Num determinado momento, a bala começou a derreter e a sujar a mão dele. A moça que deu o doce para ele recebeu uma mãozinha melada e suja estendida de volta. Sim, ele estava devolvendo a bala porque simplesmente não sabia o que fazer com aquilo. Ela então disse: “Pode comer, eu dei para você”. Ele não entendeu nada e trouxe a bala para mim, que tratei de jogar fora.
Eu adiei o acesso aos processados, ultraprocessados e açúcar enquanto eu pude; e, quando meu filho foi apresentado a eles, a repulsa foi imediata. Resultado? Ele come pouquíssimo doce, não toma refrigerante e, quando come porcaria, sabe dosar muito bem.
Ter tido um pai macrobiótico e uma mãe adepta do preparo de alimentos frescos me ajudou a construir uma consciência alimentar acima da média dos meus colegas na infância e na adolescência, e isso determina o que vai no meu prato e no dos meninos até hoje.
Não serei hipócrita e dizer que nunca comi industrializados ou que meus filhos nunca comeram ultraprocessados, mas, no que depende de mim, a dificuldade de consumir tais alimentos é bem maior.
Infelizmente, com o caçula a história é bem diferente, e minha maior tristeza é saber que ele foi apresentado a esses alimentos na creche. Foi lá que ele descobriu biscoito, achocolatado em pó, salgadinhos do tipo chips, balas e outros doces. E é nesse ponto que eu quero chegar: já reparou na cantina da escola?
Por que as escolas insistem em vender refrigerantes, sorvetes açucarados, salgadinhos e lanches extremamente calóricos? E, pasmem, estão vendendo até energético, bebida extremamente perigosa para a saúde.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia alerta para riscos de taquicardia (coração acelerado), arritmia, palpitações e aumento da pressão arterial e, ainda, ansiedade, insônia, tremores, irritabilidade e dependência. Já o alto teor de açúcar e cafeína desse tipo de bebida pode causar gastrite, refluxo e desequilíbrio na microbiota intestinal.
Eu sei como é difícil competir com uma indústria com orçamento de 14 bilhões de dólares em publicidade ao ano. É escandaloso como ela bombardeia nosso caminho no supermercado, na praça de alimentação dos shoppings, nas calçadas das cidades…
É bebida láctea com solzinho, iogurte com coraçãozinho, pacotes de biscoito recheado com cachorrinho, cereal colorido com arco-íris na embalagem e por aí vai… Vou te dizer que, quanto mais colorida, bonitinha e inofensiva for a embalagem, pior é o que está dentro dela.
Os personagens favoritos dos pequenos estão escondendo 40 g de açúcar numa única caixinha de suco. O lanche feliz deixa sua criança louca para ter a coleção, que é limitada; logo, ele precisa voltar para comer de novo e ganhar outro brinquedo da coleção. A princesa bondosa vende iogurtes cheios de corantes, estabilizantes e tantos outros “antes” que elas estão mais próximas do papel das vilãs.
Na luta contra a desinformação alimentar, o Japão consolidou regras rígidas ao longo do tempo. A base principal é a Lei Shuku Iku (Lei de Educação Alimentar), vigente desde 2005, que promove dietas saudáveis e proíbe alimentos ultraprocessados ou congelados nas refeições escolares, priorizando o preparo fresco e local.
As refeições devem ser preparadas do zero, no mesmo dia, sem ingredientes pré-processados, garantindo alimentos frescos. A lei exige a presença de nutricionistas profissionais em todas as escolas, que educam as crianças sobre alimentação saudável. Em muitas escolas, o almoço é obrigatório, preparado na escola ou em centros locais, e as crianças participam da limpeza e da distribuição (servir à mesa).
Esse sistema, fortalecido pela conscientização alimentar, mantém as taxas de obesidade infantil no Japão muito baixas (cerca de 3,5%), em contraste com níveis mais altos em outros países. O foco é o ensino de nutrição, disciplina e gratidão, transformando o almoço em parte do currículo educacional.
No Brasil, cerca de 14,2% das crianças menores de 5 anos apresentam excesso de peso, enquanto, entre adolescentes de 10 a 19 anos, a prevalência de sobrepeso chega a 33%. Os Estados Unidos lideram o número de crianças e jovens obesos, atingindo percentual de 17 a 20%. A diferença é gritante se comparada aos números japoneses.
O UNICEF divulgou, em setembro de 2025, que, pela primeira vez na história, o número de crianças obesas no mundo é maior que o de crianças desnutridas.
Educação alimentar é parte da formação do ser. Não é besteira. Crianças saudáveis são mais produtivas, mais dispostas e se desenvolvem melhor. Têm autoestima mais alta e melhor relação com seu reflexo no espelho.
Comer bem também se aprende em casa, mas não dá para fingir que essa responsabilidade é só da família. Quando a escola abre espaço para produtos que adoecem, ela também educa… só que na direção errada.
Se queremos uma geração mais saudável, crítica e consciente, precisamos alinhar o discurso com a prática: casa, escola e sociedade caminhando na mesma direção. Precisamos regular o que é vendido, questionar o que é oferecido e ensinar, desde cedo, que comer é um ato de cuidado.
Porque, no fim das contas, devemos comer para viver e não para morrer, como dizia meu pai.
Fontes: UNICEF
BBC
*Christiane Indaiá é graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura, UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce; Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II);Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam; Certificada Cambridge; Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas.





















