Imagine que você deixou seus filhos na escola e seguiu rumo aos seus afazeres. Durante suas atividades, eventualmente você se lembra do sorriso, de uma fala ou de um gesto deles e nem percebe que sorriu com amor. Agora pense que eles estão sentados em sala, entregam atividades, riem com os colegas e, ainda assim, carregam um peso que você, pai ou mãe, nunca chegou perto de sentir, mas que seus meninos e meninas arrastam, e a família nem imagina. Algo está muito errado, e não dá para ignorar os dados dessa pesquisa do IBGE.
Não é falta de força. Não é “fase”. Não é drama. É uma geração inteira adoecendo enquanto o mundo segue como se nada estivesse acontecendo.
Quando li esses dados, fui tomada por tristeza e grande preocupação, mas não houve surpresa no que diz respeito ao tema. Ainda assim, os números divulgados no último mês de março são mais alarmantes do que eu imaginava. É impossível não ficar comovido.
Três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), divulgada em 25/03/26 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Uma proporção semelhante também revelou que já teve vontade de se machucar de propósito.
O IBGE entrevistou 118.099 adolescentes que frequentavam 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil em 2024, e a amostra é considerada representativa do universo de estudantes do país.
O quadro preocupante sobre a saúde mental dessa população inclui ainda 42,9% dos alunos que responderam que se sentem “irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa” e 18,5% que pensam sempre, ou na maioria das vezes, que “a vida não vale a pena ser vivida”.
Em todos os indicadores, os resultados entre as meninas são mais alarmantes do que entre os meninos.
Resposta Meninas Meninos
Sentem-se tristes sempre ou na maioria das vezes 41% 16,7%
Já tiveram vontade de se machucar de propósito 43,4% 20,5%
Sentem-se irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa 58,1% 27,6%
Pensam sempre, ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena 25% 12%
Acham que os pais ou responsáveis não entendem suas preocupações 39,7% 33,5%
Acreditam que ninguém se preocupa com eles 33% 19%
Fonte: PeNSe/IBGE
AutoagressõesA partir da amostra, o IBGE calculou que cerca de 100 mil estudantes brasileiros tiveram alguma lesão autoprovocada nos 12 meses anteriores à pesquisa, o que equivale a 4,7% de todos os que sofreram algum acidente ou lesão no período analisado.
Entre eles, todos os indicadores são consideravelmente mais altos:
Indicador Percentual
Sentem-se tristes de forma constante 73%
Ficam irritados ou nervosos por qualquer razão 67,6%
Não veem sentido na vida 62%
Já sofreram bullying 69,2%
As meninas também apresentam maior proporção de lesões autoprovocadas. Entre aquelas que sofreram algum ferimento, 6,8% se machucaram de propósito, contra 3% entre os meninos.
“A criação de políticas públicas que contemplem essas diferenças entre os sexos é importante e urgente, para que as mulheres do país possam manter seu bem-estar e sua capacidade inegável de contribuição para a economia, para a sociedade e para o Estado brasileiro”, defendem os pesquisadores.
Diante de números tão duros, talvez o mais inquietante não seja apenas o que eles mostram, mas o que revelam silenciosamente. Estamos falando de uma geração que grita por dentro enquanto aprende a sorrir por fora, que convive com dores profundas em meio a rotinas que, muitas vezes, ignoram seu sofrimento.
Não se trata apenas de estatística. São histórias, nomes, rostos. São jovens que estão perdendo, pouco a pouco, o sentido de existir antes mesmo de descobrir quem poderiam ser.
Algo urgente nesse cenário é reaprender a escutar. Escutar de verdade. Sem pressa, sem julgamento, sem distrações. Porque, no fundo, o que esses adolescentes mais precisam não é de respostas prontas, mas de presença, de vínculo, de alguém que enxergue aquilo que os números, sozinhos, nunca conseguirão mostrar.
Aproveito para fazer um apelo aos pais: olhem de verdade para seus filhos, tenham conversas profundas com eles. Façam perguntas abertas, nunca aquelas que sugerem um sim ou um não como resposta.
Sejam curiosos e interessados. Perguntem: “O que aconteceu hoje?”, “Como assim?”, “Como você lida com isso?”, “Me conte mais…”. E ouçam atentamente, sem críticas, sem acusações, sem provocações. Legitimen o que eles pensam, sentem e dizem. Não é para concordar ou deixar de opinar; é para aproximar e construir elos de afeto e de confiança.
Tenham conversas difíceis, se necessário. Evitar confronto emocional não é uma boa estratégia quando queremos construir relações verdadeiras, saudáveis e duradoras. Tenham coragem de olhar, de sentir e, principalmente, de não fingir que está tudo bem quando não estiver tudo bem.
Fontes:
Agência Brasil
IBGE
*Christiane Indaiá é graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura, UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce; Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II);Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam; Certificada Cambridge; Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas.




















