Como o ódio concentrado em um único alvo nos absolve de nossos próprios defeitos
Existe um fenômeno recorrente na vida política, religiosa e social: a necessidade de encontrar um culpado absoluto para todos os males. Pode ser uma pessoa, um partido político, uma instituição, uma ideologia ou mesmo um grupo social. A partir do momento em que esse “inimigo” é identificado, ele passa a concentrar sobre si todo o mal, enquanto aqueles que o combatem passam a se enxergar como representantes exclusivos do bem.
Esse mecanismo não é novo. A psicologia o conhece como projeção. Segundo as teorias de Sigmund Freud, os indivíduos frequentemente atribuem aos outros características, desejos e defeitos que não conseguem reconhecer em si mesmos. Em vez de admitir suas próprias falhas, transferem-nas para um alvo externo. O resultado é uma sensação de alívio moral: se o outro é a origem de todos os problemas, então eu não preciso examinar minhas próprias responsabilidades.
Carl Gustav Jung aprofundou essa reflexão ao desenvolver o conceito de “sombra”. Para ele, cada ser humano possui aspectos de sua personalidade que prefere ocultar ou negar. Quanto menos reconhecemos essa sombra em nós mesmos, maior a tendência de enxergá-la nos outros. O inimigo passa a carregar tudo aquilo que recusamos admitir sobre nossa própria natureza.
Na filosofia, esse fenômeno também recebeu atenção. Friedrich Nietzsche alertava para os perigos da moral fundada no ressentimento. Segundo ele, muitas vezes as pessoas não constroem sua identidade a partir de valores próprios, mas da negação de um adversário. Em vez de afirmar o que são, definem-se pelo que odeiam. O inimigo torna-se indispensável para a manutenção de sua visão de mundo.
A filósofa Hannah Arendt observou algo semelhante ao estudar os regimes totalitários. Para ela, a criação de um inimigo permanente é uma poderosa ferramenta de mobilização coletiva. Quando todo o mal é atribuído a um único grupo, desaparece a necessidade de reflexão crítica. As pessoas deixam de analisar “fatos concretos” e passam a interpretar a realidade por meio de uma divisão simplista entre “bons” e “maus”.
O problema é que essa separação raramente passa pelo crivo da ética ou da moral. A ética exige reflexão, autocrítica e avaliação das consequências dos atos. Já o ódio concentrado dispensa esse esforço. Basta identificar o inimigo para que qualquer ação contra ele pareça justificável. O julgamento moral deixa de depender de princípios universais e passa a depender apenas da identidade de quem pratica ou recebe determinada ação.
É por isso que indivíduos e grupos frequentemente condenam comportamentos quando realizados por seus adversários, mas os defendem quando praticados por seus aliados. A verdade, a justiça e a coerência tornam-se secundárias diante da necessidade de preservar a narrativa do bem contra o mal.
A história demonstra que nenhuma pessoa, partido, religião ou ideologia possui o monopólio da virtude ou do erro. O ser humano é uma combinação complexa de luz e sombra, acertos e falhas. Quando concentramos todo o mal em um único alvo, não eliminamos nossos defeitos; apenas deixamos de enxergá-los.
Talvez a maturidade ética comece justamente quando abandonamos a busca pelo inimigo perfeito e aceitamos uma verdade desconfortável: o bem e o mal não estão separados por fronteiras políticas, ideológicas ou institucionais. Eles coexistem, em diferentes proporções, dentro de cada indivíduo e de cada grupo humano. Reconhecer isso não elimina os conflitos, mas nos torna menos fanáticos, mais prudentes e, sobretudo, mais responsáveis por aquilo que somos e fazemos.
*João Edisom de Souza é Analista político e professor universitário.



















