A Fé Servida em Fatias Eleitorais
Em todo ano eleitoral, existe uma cena que se repete com a precisão de um ritual. Políticos surgem nas feiras livres, sorridentes, abraçam feirantes, apertam mãos, comem pastel, tomam caldo de cana e fazem questão de registrar tudo em fotos e vídeos. Passada a eleição, as barracas continuam enfrentando os mesmos problemas: falta de infraestrutura, estacionamento precário, banheiros insuficientes e pouca atenção do poder público. O pastel acaba, as promessas também.
Agora, parece que alguns descobriram um novo mercado eleitoral. Mais barato, mais rentável e muito menos trabalhoso do que enfrentar a poeira e o calor das feiras: as grandes manifestações religiosas. Entre elas, a Marcha para Cristo, um evento que nasceu para a celebração da fé, da esperança e da comunhão cristã, mas que, em alguns momentos e lugares, acaba sendo transformado em um grande palco político.
Não é a fé que está em julgamento. A liberdade religiosa é um dos pilares da democracia, e milhões de brasileiros participam da Marcha movidos por uma espiritualidade sincera. O problema surge quando pessoas inescrupulosas enxergam nesses encontros apenas uma multidão pronta para servir de plateia eleitoral. Em vez de mensagens de amor, humildade e reconciliação, surgem discursos agressivos, provocações a adversários e demonstrações de vaidade que parecem mais próximas dos palanques do que dos púlpitos.
É curioso observar que muitos dos que mais se apresentam como defensores da moral cristã adotam uma postura incompatível com os próprios ensinamentos de Jesus. O Cristo dos Evangelhos não convocava seus seguidores ao ódio ou à humilhação do próximo. Pelo contrário. Ao resumir a Lei, ensinou: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39). Em outro momento, diante da violência, afirmou: “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5:39). São lições de misericórdia, tolerância e desapego do poder terreno.
No entanto, o que muitas vezes se vê é a instrumentalização da religião para alimentar disputas políticas e fortalecer projetos pessoais de poder. O adversário deixa de ser alguém com ideias diferentes e passa a ser tratado como inimigo moral, indigno de respeito. A fé, que deveria unir, transforma-se em ferramenta de divisão. O altar vira palanque, a oração vira discurso e a multidão converte-se em ativo eleitoral.
Talvez a pergunta que se imponha não seja se políticos podem participar da Marcha para Cristo. Evidentemente podem, afinal também são cidadãos e têm direito à sua crença. A questão é outra: participam como fiéis ou como candidatos? Estão ali para professar a própria fé ou para buscar votos sob a proteção dos holofotes e das câmeras?
Assim como o velho roteiro do pastel e do caldo de cana nas feiras populares, há quem veja na Marcha apenas uma oportunidade de marketing político. A diferença é que, desta vez, a iguaria consumida não é a culinária popular, mas a boa-fé das pessoas. E quando a religião se torna instrumento de ambição e ganância, perde-se algo muito mais valioso do que uma eleição: perde-se o sentido mais profundo da mensagem cristã.
No fim das contas, talvez valha recordar uma advertência que atravessa dois milênios e permanece atual: a fé que serve apenas para exaltar o próprio ego ou conquistar poder não é serviço a Deus, mas culto à própria vaidade.
*João Edisom de Souza é Analista político e professor universitário.




















