As listas com os nomes de estabelecimentos comerciais dos mais diversos segmentos, apontados como petistas pelos bolsonaristas, se espalham por Mato Grosso. E também estão sendo incluídos os nomes de profissionais, como o do médico Michel Patrick do Amaral Silva, cirurgião plástico, que, embora afirme que nem votou nas eleições de outubro, apareceu em uma lista intitulada “Empresas cujos donos são petistas”.
Para o cirurgião plástico, a lista tem uma conotação de segregação e exclusão, já que contém a mensagem: “Não façam negócios com esse tipo de gente”.
“Situações desse tipo, abalam as pessoas, fazendo com que se sintam ameaçadas. Uma amiga me mandou um áudio contando que o texto enviado para ela, dizia o seguinte: `Essas empresas devem ser perseguidas e eliminadas`. Isso é desumano, é baixo, é vil. Também recebi várias mensagens de amigos se solidarizando e dizendo que não concordavam com a lista enviada, mesmo sendo contrário ao PT”, disse Michel Patrick, que postou em sua página do Instagram, em forma de desabafo, uma nota de “esclarecimento e repúdio”.
A insatisfação dos partidários do presidente Jair Bolsonaro (PL), que perdeu as eleições para o petista Luiz Inácio Lula da Silva. não está restrita aos movimentos que inicialmente bloquearam as rodovias federais, e que se estendem agora a manifestações em frente aos quartéis do Exército, pedindo intervenção militar para afastar Lula, que teria vencido porque a eleição foi fraudada. A ofensiva avança agora para pessoas que possuem algum tipo de negócio e que, por supostamente serem petistas, tiveram seus nomes e de suas empresas incluídas em listas, que circulam por grupos de WhatsApp.
No caso do médico Michel Patrick, ele resolveu fazer o esclarecimento depois de ver seu nome em um post que circula pelas mídias sociais de Cuiabá, junto a outros nomes de grandes empresas nacionais.
“Achei até engraçado, se não fosse trágico o assunto, eu no meio desse povo todo”, disse o médico.
O médico garante que não é petista, não é partidário, não tem nenhum político em seu círculo de amizades, e também não fala sobre política em seus canais de comunicação.
“Primeiro, não falo sobre algo que não tenho um certo conhecimento de causa e de estudos. Minha profissão é outra, sou médico cirurgião plástico e dedico quase que 100 % do meu tempo profissional com essa atividade. E por que digo que não teria como eu ser partidário, ativista da política? Eu respondo! Não votei nestas eleições, meu título está CANCELADO, pois perdi o período de cadastramento da biometria. Sei que errei, mas afinal, como um “petista” ou “partidário” como o que a lista me faz parecer, alguém que defende com unhas e dentes seus ideais, não tem um título ativo? Pois é, quem colocou meu nome na lista, nem se deu ao trabalho de se certificar dos fatos”, criticou.
Boicote a restaurante
Na Capital, uma das empresárias já atingidas pelo boicote bolsonarista foi Joice Mendes, proprietária do Le Farine Café. Seu restaurante foi incluído em uma lista de empresas ditas “lulistas”. O motivo? É por que naquele espaço foi realizada a festa do PT na noite de 30 de outubro, em comemoração à vitória de Lula nas eleições.
Em um desabafo no Instagram, Joice contou que passou por um período de muitas dificuldades durante a pandemia e que depois de um ano de muita luta começou a se reerguer. Só que agora, após esse boicote, ela não sabe o que vai acontecer, e está em “pânico e desorientada”. Ela esclareceu no post que o espaço foi alugado para o partido e que ela nem se envolveu com a organização do evento. Em contrapartida a ação bolsonarista, Joice recebeu muitas mensagens de apoio de pessoas indignados com o boicote e que agora fazem questão de conhecer o restaurante.
A ação de boicote que atingiu também outros restaurantes levou a Abrasel-MT (Associação Brasileira de Bares e Restaurante de Mato Grosso) a se posicionar por meio de uma nota. Segundo a entidade, a missão de seus associados é servir clientes, “proporcionando uma experiência única e agradável para todos os frequentadores, independentemente da religião, cor, preferência sexual ou política de cada um”.
Boletim de ocorrência
Voltando ao médico Michel Patrick, ele informou que já tomou as medidas judiciais cabíveis, registrando um boletim de ocorrência para tentar identificar o responsável pela disseminação de uma informação falsa.
“Quem fez esta lista e não se identificou, não merece meu respeito. Porque agiu de forma ardilosa, desprezível e suja, porque quer que aquelas empresas sofram penalidades porque ousam pensar diferente deles. Se esta ou aquela empresa vota e defende um partido A ou B, não me faz deixar de procurá-la, porque na hora de alguém operar meu cérebro isso é o que menos me importa. Eu preciso que ela seja técnica, que tenha a melhor formação naquela área. Isso é ser profissional. E quanto a isso, não se preocupem, eu sei o que faço, pois meu tempo é bem gasto em uma formação sólida e humana”.
















