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Matricular é incluir? O dilema das crianças com autismo e suas famílias no ensino regular

*Por Christiane Indaiá

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Caro leitor, falar sobre inclusão não é algo simples. Quando pensamos em incluir, sobretudo nas escolas, sabemos que estamos falando de crianças e jovens com alguma limitação física, cognitiva, neurológica e, em algumas vezes, tudo junto.

Nenhum diagnóstico limitante é fácil de encarar. Nenhuma mãe está preparada, nenhuma família está pronta. O que resta é enfrentar a realidade e levar essa dor consigo ao longo da vida, torcendo para que o mundo reserve alguma gentileza aos nossos amores.

Como irmã de uma neurodivergente, eu tenho algum lugar de fala nessa história. Eu vi minha mãe sofrer a angústia pela busca de um diagnóstico. Mesmo indo de médico em médico, de especialista em especialista, por anos a fio, ele só apareceu tardiamente, o que comprometeu todo o desenvolvimento dela.

Testemunhei os anos de bullying que minha irmã sofreu na escola e o total despreparo do ambiente escolar e de seus profissionais.

Naquela época, alguns termos nem eram conhecidos. Aqueles profissionais sequer tinham informação ou formação para lidar com o quadro da minha irmã. Passados trinta anos do nascimento dela, veio um diagnóstico que só serviu para nomear, quase um rótulo de consolo para a família, enfim, poder responder: o que nossa menina tem?

No texto desta semana, aproveitando que abril não acabou e que 02/04 é a data para celebrar o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, eu quero propor uma reflexão sobre alunos autistas, mas que não impede que a mesma se estenda a outros neurodivergentes matriculados em escolas regulares.

Ao me deparar com a entrevista do médico neuropediatra e pesquisador José Salomão Schwartzman no programa Roda Viva, exibido em 06 de abril de 2026, eu decidi tirar da gaveta esse tema tão delicado e pouco explorado por quem não convive com pessoas autistas.

O TEA (Transtorno do Espectro Autista) é um distúrbio caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento, que podem englobar alterações qualitativas e quantitativas da comunicação, seja na linguagem verbal ou não verbal, na interação social e no comportamento, como ações repetitivas, hiperfoco para objetos específicos e restrição de interesses.

Dentro do espectro, são identificados graus que podem ser leves e com total independência, apresentando discretas dificuldades de adaptação, até níveis de total dependência para atividades cotidianas ao longo de toda a vida.

O autismo não é uma doença, mas uma forma diferente de funcionamento cerebral e, portanto, são preferíveis os termos “sinais” e “características” no lugar de “sintomas” para descrever sua manifestação, já que ele é uma condição, e não uma enfermidade que se cure.

Para o neuropediatra, o espectro foi sendo ampliado de tal forma que passamos a ter variações chamadas suporte 1, 2 e 3, que são formas tão distintas que não podem ser consideradas a mesma coisa. Quando o espectro foi ampliado, segundo ele, “construímos um Frankenstein com coisas tão diferentes que não podem ser a mesma coisa”.

Essa ampliação nos colocou diante de pessoas que têm diversas manifestações do autismo, mas que não são autistas. É o chamado fenótipo autista. No fenótipo, as pessoas se assemelham muito ao considerado “normal”, mas não são tão “normais” assim. Elas preenchem alguns requisitos, mas não fecham diagnóstico.

E aqui eu volto à minha irmã, que foi diagnosticada com TGD (Transtorno Global do Desenvolvimento) e que hoje está associado ao espectro autista, mas ela não é autista.

O neuropediatra ainda diz que, se observarmos detalhes do diagnóstico TEA, cada um de nós pode ter um pouquinho do que habitualmente se encontra no transtorno, mas que não nos coloca dentro dele, porque, junto de alguns traços, podemos ter várias outras coisas.

TEA e a escola regular

Segundo o especialista, indivíduos que são agressivos, que têm pouca ou nenhuma condição de se beneficiar da estadia na escola regular, não podem ser vistos na mesma condição daqueles que conseguem. “Hoje, discutir colocação escolar de criança com autismo com determinado nível de comprometimento é ilusão”. E vai além: “O ensino regular deveria atender aqueles que podem aproveitar a sua estada na escola”.

“As famílias brigam com a foice e o martelo para colocar a criança com TEA na escola, mas a escola precisa providenciar alguém para estar do lado dela. Ela não estaria melhor numa escola preparada para recebê-la, para atender suas necessidades?”

Ele também reforça que escola não é clínica e que professor não é capacitado para diagnóstico.

A competência do professor é observar comportamentos e hábitos que destoam do típico e, junto da escola, chamar a família e direcionar os pais na busca por orientação médica e psicológica.

Segundo José Salomão, a inclusão no Brasil começou pelo lado errado. “A escola recebe as crianças divergentes, mas não preparou seus professores para recebê-las”.

Preparar o espaço físico da escola, o currículo, capacitar professores e auxiliares é o mínimo desejável.

Quem já entrou numa escola sabe muito bem do volume do barulho no pátio, na aula de educação física, da quebra de protocolo em determinadas aulas e de outros sons comuns ao ambiente da sala de aula.

Escolas regulares não são preparadas fisicamente para receber alunos autistas. Não têm acústica apropriada, as salas são cheias, as janelas voltadas para o pátio, colegas falando ao mesmo tempo. “Como essa criança vai se concentrar em alguma coisa que lhe foi solicitada?”

Agora, imaginem os profissionais da educação tendo que dar conta de alunos com deficiência auditiva, visual, autistas e crianças ditas “normais” na mesma classe. Quais ferramentas os professores têm para trabalhar com um público tão plural? Mas isso é assunto para outro texto.

Por ora, quero dizer que a inclusão que transforma é aquela que começa quando temos coragem de questionar para que novos caminhos surjam; é assegurar condições reais de desenvolvimento, aprendizado e dignidade para cada indivíduo, respeitando suas particularidades.

Ao ignorarmos os limites estruturais da escola e as necessidades específicas de cada aluno, corremos o risco de transformar direito em frustração coletiva.

E você, como enxerga a inclusão hoje?

*Christiane Indaiá é graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura, UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce; Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II);Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam; Certificada Cambridge; Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas.

Fontes: Ministério da Saúde e programa Roda Viva.

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