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Enzo e Valentina: de nomes populares a rótulo de uma geração que não pode se frustrar

*Por Christiane Indaiá

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É meio-dia e você está na porta da escola para buscar seu filho. Enquanto aguarda a saída dele, a seguinte cena acontece na sua frente: uma outra mulher, que também aguarda pela saída da filha, uma garota de aproximadamente sete anos, começa a levar uma bronca da estudante no primeiro contato visual que tem com ela, antes mesmo de se aproximar para um abraço ou dar a mão:

“Achei que ia mofar aqui! Hoje eu saio mais cedo, você não sabe?”

Acrescente aí uma grosseria sem tamanho e ainda o fato de ela entregar a mochila e a lancheira com rispidez para a mãe, que por sua vez tenta explicar:

“Não consegui sair mais cedo, meu amor.”

“Eu não quero saber!”, retruca a menina.

Elas seguem para o estacionamento. Observo que, enquanto se afastam, a garota insiste naquele comportamento e aquela mulher não fazia absolutamente nada! Era visível a incapacidade daquela mãe de lidar com a situação. Era hora de deixar claro para a criança que, como adulta da situação e mãe dela, aquele comportamento era inaceitável. Era o momento de ser firme e impor limites.

Essa criança tem muita coisa em comum com outras da sua geração, mas, como professora e mãe, penso que as mais trágicas são a falta de limites, o desconhecimento total e absoluto de hierarquia e a superproteção que não permite frustrações.

Com 404.088 registros com o nome Enzo e 193.100 para Valentina, segundo dados do Censo 2022, esses nomes se tornaram um chavão para a geração Alfa (nascidos entre 2010–2025). Daí o rótulo: “Enzos e Valentinas”. Eles são os filhos dos millennials (nascidos entre 1981–1996), geração conhecida por oferecer uma educação baseada no respeito democratizado, destacando-se pela criação positiva, gentil e consciente. Aspectos muito importantes e válidos quando aplicados corretamente. Acontece que criação de filhos precisa ter limites bem estabelecidos e claros, além de exposição das crianças à frustração, aspectos nos quais muitos millennials falham.

Muitas crianças da geração Alfa apresentam problemas comportamentais já nos primeiros dias de aula. Muitas delas mordem ou batem na professora e na auxiliar de turma quando ouvem o primeiro não. Coloque-se no lugar dessa criança: imagine uma pessoa estranha te dizendo algo que você nunca ouviu antes, e esse algo é um frustrante não. Ela não foi preparada para este momento e, por isso, se descontrola. Algumas se desesperam e não controlam seus impulsos quando ouvem: “não pode”, “agora não”, “espere sua vez”. E o problema não está nelas, mas no modo como são despreparadas para ambientes fora da bolha onde vivem. São dessa geração todos os agressores do cachorro Orelha em Santa Catarina, por exemplo. Adolescentes sem noção de limites e empatia, cujos pais têm sido duramente criticados exatamente pelo tipo de criação sem limites que parece ter sido oferecida.

Coisas básicas que deveriam vir de casa, como “bom dia”, “boa tarde”, “desculpe”, “com licença”, passaram a ser ensinadas e não apenas reforçadas na escola. Isso aponta uma falha grande das famílias. Deixo claro que não estou falando de todas as crianças e famílias desta geração, mas de um número muito considerável delas.

É preciso respeito na criação das crianças, sim, mas isso não significa e não pode, de forma alguma, se tornar uma justificativa para que pais não exerçam seu dever de educar pessoas emocionalmente mais seguras e capazes de compreender que a vida é feita de muitos nãos. O psicólogo Gerson Abarca afirma que: “O não ajuda a criança a aprender a lidar com limites que a vida colocará no dia a dia. É um ensaio para lidar com questões satisfatórias e não satisfatórias. Dizer não é um ato de amor”.

Dicas para dizer “não” de forma construtiva:

  • Explique os motivos: assim a criança entende a lógica, não apenas uma punição.
    • Use o “não” para questões de segurança e comportamento. Dizer não para coisas minúsculas e desnecessárias torna-se desmotivador.
    • Alternativas: quando possível, ofereça alternativas indicando o que a criança pode fazer.
    • Abaixe-se: fale olhando nos olhos da criança. Esse contato ajudará na compreensão de que, naquela situação, o não é necessário.
    • Essas dicas podem ser usadas na criação de adolescentes também.

Afirmo que não se trata de uma crítica a nomes, gerações ou estilos parentais, mas é muito importante entender que educar é preparar para a vida real. Crianças que nunca são contrariadas não são mais felizes, são mais frágeis. Limite não é dureza, é direção; frustração é treino emocional. Para serem adultos mais equilibrados, empáticos e responsáveis amanhã, as crianças precisam de adultos de verdade para conduzi-las hoje.

*Christiane Indaiá é professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II); Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam; Certificada Cambridge; Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas.

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