Relatórios de inteligência divulgados pelo O Globo destacam a instalação de rádios clandestinas nas imediações da Penitenciária Central do Estado, na capital mato-grossense, como um dos exemplos do avanço de facções criminosas que dificultam fiscalizações e operações contra serviços ilegais de telecomunicações em vários estados do país. Os documentos apontam que esse cenário atinge também apurações sobre condições precárias de trabalho, que deixaram de ser realizadas em locais dominados pelo crime organizado.
Em Cuiabá, os informes descrevem a existência de duas emissoras que funcionavam perto da Penitenciária Central do Estado. O material registra que integrantes de uma facção utilizavam a estrutura para manter contato com presos, familiares e pessoas de fora do sistema prisional. A interrupção das transmissões só ocorreu após ordem judicial e com apoio de equipes policiais, apesar de ameaças feitas contra o grupo responsável pela fiscalização.
A Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso informou, em resposta aos relatórios, que não existe bairro na capital onde o acesso de viaturas esteja impedido para o policiamento diário, rondas e demais ações de segurança.
Os mesmos documentos de inteligência abordam ainda a expansão do crime organizado em estados como Pernambuco e São Paulo, além de Mato Grosso. Segundo os registros, investigações sobre jornadas e ambientes de trabalho em situação precária foram interrompidas, assim como operações voltadas a bloquear serviços irregulares de telefonia e internet que causam prejuízos a concessionárias.
Outro caso relatado ocorreu há seis meses no Rio de Janeiro, quando uma equipe da Anatel foi chamada para apurar uma transmissão clandestina que interferia na comunicação de pousos e decolagens no Aeroporto do Galeão. A operação acabou suspensa por motivo de segurança, porque os técnicos não conseguiram chegar aos equipamentos instalados em área controlada pelo Comando Vermelho. Dias depois, uma nova equipe utilizou drone para localizar uma antena suspeita, sem conseguir confirmar a origem do sinal. A concessionária RIOGaleão informou que mantém cooperação constante com autoridades e órgãos responsáveis por investigações ligadas à segurança aeroviária.
Depois da megaoperação realizada no Rio, que conteve a recuperação de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva medida por pesquisas, o Executivo encaminhou ao Congresso o projeto conhecido como Antifacção. A proposta passou por várias versões e gerou embates entre o Planalto e a oposição na disputa pelo protagonismo na tramitação do texto, que pode ser votado na Câmara dos Deputados nesta semana.
De acordo com os documentos de inteligência, o Comando Vermelho atua em 70 dos 92 municípios fluminenses e mantém presença em 20 estados brasileiros. O grupo disputa as principais rotas do tráfico de drogas com o Primeiro Comando da Capital, também abrangido pelo projeto Antifacção, e diversificou as fontes de renda com atividades como o garimpo ilegal.
Diante da capilaridade dessas organizações e do controle exercido em determinados territórios, servidores e trabalhadores responsáveis por serviços públicos no Rio têm recorrido à Superintendência da Polícia Federal em busca de apoio. Os relatórios produzidos pela PF mapeiam áreas de risco, avaliam o grau de perigo em cada tipo de atendimento básico à população e trazem orientações para que auditores fiscais evitem determinadas regiões, além de alertas sobre a possibilidade de ataques armados durante deslocamentos e inspeções.


















