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As armadilhas da maternidade: os impactos reais que ninguém discute

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Poucas pressões são tão sutis e, ao mesmo tempo, tão pesadas quanto aquela que empurra mulheres para a maternidade como se fosse um destino inevitável. Como se isso fosse um passo obrigatório, e não uma escolha que muda absolutamente tudo.

“E aí, quando vem o bebê?”

Se você é mulher, já ouviu essa pergunta mais vezes do que gostaria; às vezes, como brincadeira; às vezes, como cobrança disfarçada de carinho.

Na semana do Dia das Mães, eu não vim romantizar a maternidade. Aliás, nunca o fiz. Lembro-me até hoje da cara de espanto de um ex-colega de trabalho ao ouvir minha resposta direta e curta, mas não grossa, quando me perguntou o que eu estava achando de estar grávida. Sem pestanejar, mandei logo: HORRÍVEL!!!

Desculpem-me as mamães românticas, mas estar grávida não é um negócio legal, não. Passar meses sem posição para dormir, ir ao banheiro a cada meia hora para fazer uns 10 ml de xixi, emoções à flor da pele, ganho de peso, sobrepeso, perda de peso… essas coisas são muito incômodas. E vejam que sequer mencionei as doenças gestacionais e as limitações funcionais na rotina. Gente, não dá para amarrar o cadarço do tênis, abotoar uma sandália…!!!!

Sim, isso passa, mas o bebê fica. Nessa hora, muito provavelmente, aquele monte de gente que te cobrou um filho não estará ao seu lado para revezar com você. Muitas vezes, nem o pai estará.

Você se vê sozinha, perdida, com a queda brusca de alguns hormônios, com dores físicas e emocionais, privada de sono, cercada de expectativas alheias e das suas próprias e, muitas de nós, sem rede de apoio.

E isso também passa, mas a criança permanece. E você? Cadê você?

Quase todas as mães com as quais me relaciono relatam uma quase morte da mulher que existia dentro delas. Para muitas pessoas, “é assim mesmo”, mas não deveria ser, não.

Antes de sermos mães, somos mulheres com desejos, sonhos e vontades. Contudo, eles parecem ficar vegetando, em coma ou anestesiados por um longo período em alguma UTI por aí.

Ter filhos coloca as mulheres diante de funções excessivas: casa, trabalho fora de casa, relacionamento íntimo, família, rotina doméstica, estudo etc. E não há sanidade emocional que não se abale por um período indeterminado.

Aí você pensa: “Mas eu dou conta”. Não duvido, mas não é sobre dar conta. É sobre dar à sua versão mulher o direito de existir com o mínimo de dignidade. Na minha opinião, é aqui que a armadilha habita: na ilusão romântica de dar conta.

Nós, mulheres, damos conta de tanta coisa, mas esquecemos de nós mesmas quando estamos no exercício da maternidade, especialmente nos anos iniciais. Acreditamos que, ao darmos conta, seremos apreciadas, elogiadas, paparicadas, mais amadas, mais admiradas, mimadas até… Só que não é bem assim.

Sabe por quê? Porque as pessoas acreditam que ser mãe é naturalmente feminino pelo fato de termos um corpo capaz de gerar. E aí, meu bem, a sua versão mulher, cujos sonhos, desejos e vontades estão lá na UTI, não corresponde às expectativas alheias, e as cobranças chegam numa avalanche.

Quase ninguém entende genuinamente por que você está tão cansada, irritada, triste, sem viço e sem forças. Afinal, “toda mulher tem que ter ao menos um filho para sentir-se completa e cumprir um mandamento para ser feliz”. Será?

Efeitos da maternidade nas mulheres

A psicologia moderna mostra que a maternidade promove uma reconfiguração profunda na identidade feminina.

Aqui estão os principais efeitos identificados por estudos recentes:

Reconfiguração cerebral: estudos de neuroimagem indicam que o cérebro da mulher passa por uma “poda sináptica” durante a gestação e o pós-parto.

Aumento da empatia: áreas ligadas ao processamento social e à detecção de perigo tornam-se mais eficientes para que a mãe entenda as necessidades do bebê.

Perda de massa cinzenta: curiosamente, há uma redução em certas áreas, o que os cientistas interpretam não como perda de função, mas como uma especialização do cérebro para a nova função de cuidado.

O fenômeno da carga mental: este é um dos efeitos mais documentados na sociologia. Mesmo em casais que dividem tarefas, a “gestão da vida” costuma recair sobre a mulher.

O trabalho invisível: é a mulher quem geralmente lembra de vacinas, uniformes, aniversários e estoque de fraldas.

Impacto: pesquisas mostram que essa sobrecarga cognitiva é a principal causa de burnout materno e exaustão emocional, muito mais do que o cansaço físico.

Impacto na carreira e renda: penalidade da maternidade. No Brasil, dados da FGV mostram que quase 50% das mulheres perdem o emprego em até dois anos após o fim da licença-maternidade.

Diferença salarial: a “penalidade da maternidade” descreve como o salário de mulheres tende a estagnar ou cair após os filhos, enquanto o de homens, o “bônus da paternidade”, muitas vezes sobe, pois são vistos como “provedores mais responsáveis”.

Mudança na identidade: matrescência. Assim como a adolescência, a maternidade é uma fase de transição hormonal e social intensa.

Luto da “mulher anterior”: especialistas apontam que é comum a mulher sentir um luto pela liberdade e pela identidade que tinha antes dos filhos.

Isolamento social: muitas relatam uma sensação de solidão, mesmo estando acompanhadas pelo bebê, devido à dificuldade de manter conversas e atividades adultas.

Paradoxo da felicidade: embora o estresse diário aumente e a satisfação imediata possa cair, pesquisas de psicologia positiva indicam que a maternidade costuma elevar o sentido de propósito de vida a longo prazo.

Nascimento e relacionamento segundo o IBGE

Dados mostram que a recuperação dos níveis de felicidade dentro do relacionamento pode levar até dois anos após o nascimento do primeiro filho, e muitos casais não conseguem desenvolver bem as funções parentais juntos.

Especialistas apontam que, após o nascimento do segundo filho, o aumento da carga mental e a necessidade de gerenciar a logística de duas crianças podem intensificar conflitos preexistentes. Estima-se que 70% dos casais enfrentam uma queda significativa na satisfação conjugal após a chegada do segundo filho.

Segundo o IBGE de 2024, 45,8% dos divórcios no país ocorrem em famílias constituídas apenas por dois filhos menores de idade, e cerca de 20% a 25% dos casais se separam até o terceiro ano de vida do primeiro filho.

E aí, futuros papais e mamães, estão dispostos? Estão conscientes desses fatos?

Maternidade não é apenas sobre ter filhos; é sobre uma mudança radical na vida de uma mulher, e nem todas estão preparadas ou dispostas. Precisamos respeitar e parar de cobrar o que algumas mulheres não querem para a vida delas. Esse posicionamento não faz delas pessoas ruins.

Dito isso, saibam que eu passei alguns anos da minha vida querendo ser mãe. Depois, com alguma maturidade alojada em mim, passei anos sem querer sequer pensar na possibilidade e fui julgada por isso.

Sim, eu cedi às pressões e cobranças sempre muito carinhosas do marido, das avós, dos tios, dos amigos… “Já pensou num bebê com a nossa cara?”; “No dia em que eu tiver um filho…”; “Você soube que fulana está grávida?”; “Ai, que vontade de ter um netinho!”.

Fiz um acordo: vamos ter um; se eu gostar da experiência, teremos outro. Para minha sorte, eu gostei e, apesar de todos os perrengues, eu gosto da maternidade e de seus ensinamentos. Repito: eu tive sorte e já agradeci por terem me influenciado.

Mas, agora, imaginem o que teria sido da minha vida e das minhas crianças se o amor necessário não viesse, se o sucesso desse experimento não chegasse ou se minhas crianças fossem “estranhas” para mim. Acreditem, acontece.

Eu AMO os meus filhos! Dou minha vida, minha alma, meu corpo por eles… Mas tem dias em que a vida pesa nos ombros e você ainda precisa ser mãe.

Não permita que sua maternidade surja de um desejo alheio se você pensa que não tem aptidão ou se lhe falta vontade para o compromisso de vida que terá pela frente. Tem dias em que a saudade de nós mesmas é tão grande e o caos é tão avassalador que questionamos nosso amor, nossa dedicação e nossa escolha. Isso dói. Falo por mim. Dói porque, antes de ser mãe, eu era eu.

Ao fazer sua escolha, pergunte-se: quanto do meu desejo maternal é verdadeiramente meu? Quanto do meu sonho de maternidade nasceu exclusivamente de mim? É meu mesmo ou foi forjado na minha educação e nas minhas crenças sobre o que é ser mulher?

Que a gente pare de exigir tanto das mulheres e comece a escutar mais. Porque, por trás de toda mãe, ainda existe uma mulher que também precisa ser vista, cuidada e respeitada.

Maternidade não é destino, é decisão. E toda decisão desse tamanho merece menos pressão, mais verdade e muito mais apoio.

Sendo assim, desejo um feliz Dia das Mães para todas as mulheres que, com suas humanas limitações, amam seus filhos com todo o amor que conseguem doar e que exercem a maternidade com toda a humanidade de suas mentes, sentimentos e ações. Não importa se você escolheu ou se escolheram por você.

Para todas as mulheres que não são mães por opção ou condição, mas que encontram braços maternalmente afetuosos e acolhedores em suas mães: feliz Dia das Mães!

Fontes: IBGE, FGV e Editora Matrescência

Christiane Indaiá

Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura pela UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce

Professora especialista em Língua Inglesa, com 24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II

Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam

Certificada Cambridge

Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas

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