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O candidato papagaio – repete brigas que não são dele

*Por João Edisom de Souza

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Há algo preocupante, e cada vez mais comum no ambiente eleitoral brasileiro: candidatos que pedem voto para um cargo específico, mas fazem campanha atacando adversários que disputam outros cargos. Deputados estaduais ocupam seu tempo falando de presidência da República. Pretendentes à Câmara Federal concentram energia em atacar governadores ou presidentes ou ex-presidentes. Aspirantes ao Senado ignoram o papel do Senado e vivem de comentar disputas alheias. O que é permitido é pedir votos para os demais candidatos de seu arco de aliança sem citar os adversários.

O problema não é apenas retórico. É institucional.

Em uma democracia minimamente funcional, cada cargo público possui atribuições próprias. Deputado estadual legisla e fiscaliza no âmbito do Estado. Deputado federal atua na Câmara dos Deputados. Senador representa seu Estado no Senado Federal. Governador administra o Executivo estadual. Presidente conduz o Executivo nacional. Essa distinção não é detalhe técnico: é a base da organização republicana.

Quando um candidato troca propostas por ataques dirigidos a quem sequer concorre ao mesmo posto, duas hipóteses surgem de imediato. A primeira: ele desconhece a função para a qual pede votos. A segunda: sabe exatamente o que faz e aposta na desinformação do eleitor. Nenhuma delas recomenda confiança.

O “candidato papagaio” é, em última instância, um sintoma da crise de mediação política: ele não representa, reverbera; não propõe, reproduz; não lidera, ecoa. Sua presença empobrece o debate público ao substituir a deliberação por repetição e a responsabilidade por performance.

A estratégia é conhecida. Em vez de explicar como pretende fiscalizar gastos públicos, melhorar a legislação, acompanhar o orçamento ou defender interesses regionais, o candidato prefere explorar paixões ideológicas e guerras simbólicas. É mais fácil despertar raiva do que apresentar competência. É mais simples repetir slogans do que demonstrar preparo.

Quem perde com isso é o eleitor.

Ao votar em personagens que transformam campanhas legislativas em palanques de conflito nacional, a sociedade frequentemente elege parlamentares incapazes de exercer o mandato com seriedade. Surgem figuras especializadas em vídeos, escândalos e ataques digitais, mas ausentes dos debates técnicos e das responsabilidades institucionais.

O resultado aparece depois: Assembleias enfraquecidas, Câmaras desmoralizadas, debates rasos e pouca produção concreta para a população.

É preciso recolocar a política em seu devido lugar. O cidadão deve perguntar ao candidato algo elementar: qual cargo você disputa e o que pretende fazer nele? Se a resposta vier em forma de ataques a pessoas que concorrem a outro posto, o sinal de alerta está aceso.

Democracia madura exige eleitores atentos. Quem não sabe para que cargo concorre ou finge não saber dificilmente saberá honrá-lo depois de eleito.

*João Edisom de Souza é analista político e professor universitário.

 

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