Treze anos sem Dante de Oliveira, a falta que faz a Mato Grosso

Diogo Botelho

Por: Diogo Botelho

Grande parte da história recente do País e sua redemocratização estão ligados a um mato-grossense ilustre: Dante Martins de Oliveira. Admirado pelos idealistas que buscam a construção de um mundo democrático e justo, ao falecer em 6 de julho de 2006 deixou um enorme vazio na política de nosso Estado e, desde sua morte, onde foi velado por milhares de pessoas na Assembleia Legislativa, teve, então reconhecida, a sua condição de ser um político querido e popular de sua terra natal.

Dante de Oliveira, despido de vaidades, foi um governador que dispensava qualquer segurança para transitar de Secretaria em Secretaria a pé, nos finais de expediente, no Centro Político Administrativo, sempre com vistas a tratar, pessoal e rapidamente, dos assuntos urgentes de cada pasta! Um governante que esteve à disposição do povo, sempre indo de encontro ao povo! E, aqui, longe de qualquer intenção de desviar das honrarias e reconhecimento de seus méritos, é preciso registrar que, depois do seu governo houve um imenso distanciamento entre governante e povo, tanto que, até o Palácio Paiaguás, que entendemos ser do povo mato-grossense e existir em razão dele, teve a sua arquitetura alterada, foi cercada de grades de ferro, espelhando, infelizmente, o distanciamento entre governante e governado, o que, também, explica o atual relacionamento que a atual gestão dispensa aos mato-grossenses!
Dante de Oliveira, muito embora tenha a sua fama expandida na década de 80, com a proposta da emenda constitucional de eleição direta para a Presidência da República, conhecida como emenda das Diretas Já, o fato é que desde muito jovem, tinha expressiva militância política! Aqui, falamos do tempo em que era acadêmico de Engenharia Civil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde integrou as fileiras do clandestino e libertário Movimento Revolucionário 8 de outubro – MR8 –, um dos braços armados que combatia a ditadura militar!

No entanto, o caminho da luta armada não era o destino de Dante de Oliveira, pelo contrário, em sua alma estava testificada a vocação para o diálogo democrático, tanto que ao retornar a Mato Grosso, já em 1976 disputou sua primeira eleição para o cargo de vereador de Cuiabá; porém, pelas forças do destino, não logrou êxito neste pleito eleitoral. Todavia, em 1978, a sua competência foi chancelada pelo eleitor, vindo a ser eleito deputado estadual.

Nesse curso histórico, em 1982, pelo MDB, foi eleito deputado federal, onde, durante o mandato, por sua exímia capacidade política, posto que tramitavam outras propostas de eleições diretas, foi por meio de sua vocação democrática e habilidade em dialogar é que contando com o apoio de Ulysses Guimarães, é que a emenda das Diretas Já lhe foi destinada e levada a plenário.

A emenda, batizada de Dante de Oliveira, não foi aprovada, não alcançou os dois terços necessários, pois, 112 deputados federais, omissos quanto ao dever que a pátria lhe convocou, absurdamente, não compareceram. Sobre o episódio, interessante destacar que, segundo relato do próprio Dante, Tancredo Neves, bastante experimentado na política, já havia previsto que grande era a pressão governamental e da cúpula militar para que os parlamentares do antigo PDS votassem contra a emenda Dante de Oliveira.
A emenda Dante de Oliveira, pelas Diretas Já, foi responsável pelas manifestações cívicas que inundaram as ruas, as praças e as avenidas do Brasil, soprando os novos ventos, rompendo a aurora que tanto o vigia aguardava! Só para registrar, segundo pesquisa IBOPE à época, 84% da população apoiava a emenda Dante de Oliveira!

No entanto, hoje, a história nos ensina que as derrotas, em determinadas circunstâncias, em verdade, são vitórias que o tempo cuida de coroar. Afinal, a emenda não aprovada marcou a transição do regime de exceção para o regime democrático, tanto que a eleição seguinte, muito embora indireta, elegeu Tancredo Neves! Veja-se, assim, que Dante foi protagonista do episódio mais significativo do processo de reconstrução democrática nacional.

A sua atuação na Câmara Federal lhe credenciou para, em 1985, ser eleito prefeito de Cuiabá, onde exerceu o mandato de 1º de janeiro a 28 de maio de 1986, deixando o cargo para ocupar e enfrentar um dos maiores desafios da República: fazer, efetivar e dar concretude à reforma agrária, sendo nomeado como Ministro de Estado, no Ministério da Reforma e Desenvolvimento Agrário. É certo que, sua convocação para ocupar a estratégica pasta, se deu, evidentemente, por sua extrema habilidade em dialogar, afinal, até os dias atuais os conflitos agrários revelam-se violentos e nevrálgicos, quiçá, há mais de 30 anos, em 1986!

Dante, assim, ia consolidando sua liderança política, sua destinação em tratar dos interesses públicos com a alma pública e para o público, o que lhe forjou para, no raiar da década de 90, após, novamente perder outra eleição para o cargo de deputado federal, ser chancelado prefeito de Cuiabá em 1992.
No paço municipal permaneceu até 1994, onde, após concorrer ao Executivo estadual, renunciou ao cargo para ocupar sua derradeira missão política: governar o Estado de Mato Grosso.
O destino lhe reservou o Palácio Paiaguás, e mais! O destino aliado a sua competência também lhe conferiu o reconhecimento de ter sido o gestor que efetivamente arrumou a casa e lançou as bases para que o Mato Grosso tivesse as condições estruturais de crescer e ganhar a importância e o destaque econômico no cenário nacional.

Seu legado é indelével, e, muito embora as quizilas naturais do jogo político tentar diluir seu substancioso histórico, o certo é que até seus adversários o reconhecem como um homem, um democrata, um republicano que deve ser rememorado, cultivado a sua memória para que as gerações futuras possam beber dessa fonte e se inspirar na notável vida política de Dante de Oliveira.

Naquele dia, 6 de julho de 2006, Dante fez a travessia para a dimensão espiritual, mas o fez acreditando que a única ferramenta capaz de transformar o homem em seu aspecto social é por meio da política. Nunca deixou de acreditar e apostar em soluções simples, reais e concretas para emancipar civilmente o homem. Muito fez e não fosse seu precoce passamento estaria fazendo, principalmente, em tempos obscuros que estamos experimentando, onde, sequer o governador se dispõe a atender o povo!
Dante, quanta falta ainda faz a Mato Grosso!

*Diogo Botelho é advogado militante em Cuiabá e professor universitário.

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