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O palco da Exponorte

*Por João Edisom de Souza

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Quando a imagem vale mais que a trajetória

Há algo de profundamente revelador e ao mesmo tempo inquietante no comportamento recente de parte da classe política mato-grossense durante eventos públicos como a Exponorte, em Sinop. O que se vê não é apenas a presença de lideranças nacionais, mas um movimento quase automático de aproximação, disputa por enquadramento e busca por registro ao lado de quem, naquele momento, concentra a atenção do público e das redes.

A figura de Flávio Bolsonaro, por exemplo, tem funcionado como um catalisador desse fenômeno. Ainda em processo de afirmação política mais robusta, sua projeção está fortemente associada ao capital simbólico herdado de Jair Bolsonaro liderança que, independentemente de juízos de valor, consolidou uma base social mobilizada e altamente ativa no ambiente digital.

O ponto que chama atenção, no entanto, não é a presença de Flávio em si, mas a reação que ela provoca. Políticos locais com trajetória consolidada, experiência administrativa e reconhecimento público passam a disputar espaço simbólico ao seu redor, como se a legitimidade construída ao longo de anos dependesse, de repente, de um registro fotográfico ou de uma associação momentânea, estilo fã clube.

Esse comportamento não pode ser explicado apenas por vaidade ou insegurança individual. Ele reflete uma transformação mais profunda na lógica da política contemporânea. Como já indicava Max Weber, o carisma é uma forma poderosa de dominação simbólica, capaz de reorganizar hierarquias independentemente de currículos ou realizações concretas. Em tempos de hiperconectividade, esse carisma é amplificado por algoritmos, redes sociais e métricas de engajamento.

A política, que outrora se estruturava no debate de ideias e na construção de consensos, passa a operar sob a lógica da visibilidade. Hannah Arendt alertava para o risco de esvaziamento do espaço público quando a ação política se transforma em espetáculo. Hoje, essa advertência parece ganhar contornos ainda mais evidentes: não basta fazer, é preciso aparecer, e aparecer ao lado de quem gera atenção.

Na leitura de Zygmunt Bauman, vivemos uma modernidade líquida, em que relações, instituições e referências tornam-se voláteis. Byung-Chul Han vai além ao descrever uma sociedade orientada pela exposição, na qual a visibilidade se converte em valor em si mesma. Nesse cenário, a política não escapa: o capital eleitoral passa a ser medido também por curtidas, compartilhamentos e presença digital.

A ciência política contemporânea reforça esse diagnóstico. Manuel Castells descreve uma sociedade em rede, onde o poder circula por fluxos de informação. Quem domina esses fluxos ou se associa a quem os domina amplia sua capacidade de influência. Não se trata apenas de convicção ideológica, mas de estratégia de sobrevivência em um ambiente competitivo e altamente midiatizado.

Ainda assim, é legítimo questionar os efeitos desse deslocamento. Quando políticos experientes passam a se orientar mais pelo “tribunal da internet” do que pela construção de propostas consistentes, corre-se o risco de empobrecer o debate público. A política deixa de ser um espaço de convencimento racional para se tornar uma arena de disputa por atenção.

Houve um tempo e não faz tanto assim em que lideranças se destacavam pela capacidade de formular ideias, dialogar com a sociedade e apresentar projetos de longo prazo. Hoje, a tentação do atalho simbólico parece falar mais alto. A foto substitui o argumento. A associação substitui a trajetória.

O desafio, portanto, não é apenas individual, mas coletivo. Trata-se de recuperar o equilíbrio entre visibilidade e substância, entre estratégia e conteúdo, entre presença e propósito. Porque, no fim das contas, a política que se limita à imagem corre o risco de desaparecer junto com ela tão rapidamente quanto um clique que deixa de ser relevante no fluxo incessante das redes.

*João Edisom de Souza é Analista político e professor universitário.

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