CUIABÁ
25 de setembro de 2021 - 05:02

O filho pródigo

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A parábola do filho pródigo, registrada pelo evangelista Lucas, é uma das mais profundas falas de Jesus. A história de um filho (aliás, são dois na parábola), que, se rebela, desonra o pai (pois, na cultura judaica, pedir sua parte na herança com o pai vivo, era considera-lo morto e desonra-lo); sair ao mundo, esbanjar a herança e terminar na lama, entre porcos literalmente.

Há dois pontos importantes nessa parábola, segundo os teólogos:

1-O filho pródigo “caiu em si”- pensou, fez um autojulgamento de seus atos, e pensou em sua casa, na situação dos empregados do Pai, que tinham vida superior à dele, e resolveu voltar, para ser recebido, não como filho, mas, como “empregado”; pois não tinha mais esse direito;

2- O verdadeiro personagem nessa parábola, dizem os teólogos, é o Pai, não o filho pródigo; pois sempre esperou o filho voltar. É um resumo da opera.

O presidente Jair Bolsonaro divulgou nesta quinta-feira (9) um texto intitulado “Declaração à Nação” no qual afirma que nunca teve “intenção de agredir quaisquer dos poderes”. Segundo o texto “as pessoas que exercem o poder não têm o direito de “esticar a corda”, a ponto de prejudicar a vida dos brasileiros e sua economia”.

E, como disse o governador Doria: “O leão virou um rato! Grande dia!”. Bolsonaro aprontou, esticou a corda, viu que não tinha apoio nenhum para dar um golpe; a não ser de seus militantes radicais, que não representam o país; a reação dos poderes constituídos- STF, Congresso e outras; seu isolamento total e; como bom usuário e manipulador da religião e de seu curral “evangélico”, espertamente, também “caiu em si” e, como Lula, fez uma Carta à nação, (aliás, o autor é o ex-presidente Temer), recuando de tudo em que crê e propaga junto com seus militantes: “intervenção militar com  ele no poder”, destituição do STF e prisão de ministros, desrespeito às leis e CF”, enfim, um verdadeiro filho pródigo arrependido.

Será que o “Pai”, ou seja, o eleitorado vai acreditar nesse arrependimento e fazer as festas da parábola, mesmo com a revolta do filho mais velho, isto é, 75% do eleitorado? É difícil acreditar.

Voltou o Bolsonaro de 2018 (santo, incorruptível, nova política, fim do “toma lá, dá cá”; nada de Centrão? O Brasil não acredita nessa extraordinária conversão. É jogo de cena para tentar, ao menos, chegar no 2º turno; pois, como todos sabem, o Bolsonaro de ontem muda a cada 24 horas, como o camaleão. Sen. Omar Aziz (PSD-AM) – presidente da CPI da Covid no Senado: “O dia 09.09 é histórico. Dia que Bolsonaro fez autocrítica sobre a China.

E dia que ele recuou na tensão com outros poderes. Se for ato genuíno é louvável. Se for jogada para liberação do recurso de precatórios para programas eleitoreiros em 22, é lastimável. Estaremos alerta!”; o Sen. Fabiano Contarato (Rede-ES): “Bolsonaro é o barril de pólvora que está implodindo o país.; fabricador de crises, viúvo de ditadura, péssimo governante, tiranete desequilibrado. Sua nota de hoje é mais uma vergonha para a República.

Impeachment para este terrorista! Bolsonaro é um típico covarde manipulador! Faz da ameaça um método de governabilidade, p/ conseguir o que quer. E tem funcionado! Avança e recua, afrouxando todos os limites do Estado Democrático de Direito.

É só aguardar o próximo ataque: ele virá!” O Dep. Fábio Trad (PSD-MS): “Bolsonaro capitulou de suas intenções golpistas? Não vejo recuo sincero, apenas tática para sobreviver politicamente e continuar envenenando a democracia de outro modo. Prefere a eventual humilhação de uma desculpa insincera ao enfrentamento da crise que a sua leviandade gerou”.

Ou seja, como diz o ditado: “quando a esmola é grande, o santo desconfia”. Na “Declaração à Nação”, o presidente da República afirma que nunca teve “nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes” (sic) e que as palavras “por vezes contundentes” contra Moraes “decorreram do calor do momento e dos embates que sempre visaram o bem comum”.

“Reitero (sic) meu respeito pelas instituições da República, forças motoras que ajudam a governar o país. Democracia é isso: Executivo, Legislativo e Judiciário trabalhando juntos em favor do povo e todos respeitando a Constituição. (Aleluia). Sempre estive disposto a manter diálogo permanente com os demais Poderes pela manutenção da harmonia e independência entre eles”, diz o documento.

O Zé Trovão, foragido e preso no México, leu a Carta? E, os bolsonaristas de carteirinha, vão mudar o discurso? Pejo jeito, não. Continuam no mesmo tom. O que o presidente vai dizer aos fiéis do “cercadinho” do Alvorada:“galera, errei, meia volta!!!?

Os caminhoneiros continuam em Brasília bloqueando a Esplanada dos ministérios. Vão sair? A economia- Bolsa e dólar estão dando um crédito de confiança, mas, com cautela, pois breve, sabem, que poderá voltar o verdadeiro Bolsonaro.

Ontem (09), na sua live semanal, de acordo com o presidente, uma parte de seus apoiadores o criticou pela publicação do documento.

“Eu não vi nada demais na carta. Paciência”, disse. Ou seja, a Carta é um jogo de cena, para evitar um mal maior, talvez, um impeachment. O presidente ainda pediu para que os bolsonaristas “deem um tempo”. Mas, deu uma recaída, pois ninguém é de ferro: “Estarei onde o povo estiver”.

E, “Aí o povo fala: não, o pessoal passou fome. Olha, muitos brasileiros passam mal. Sei disso. Alguns passam fome? Sim, passam fome. Mas a média dos que passou (sic) a comer mais foi bem maior. (a fila dos ossos acabou?). “Eu tenho certeza que trará bons frutos.”.

Traduzindo; “o povo vai engolir a farsa”. Disse “que não quer errar, que nunca quis ofender as instituições”. Na parábola, o filho prodigo é aceito, perdoado e reintegrado na família. Na vida real, vai acontecer o mesmo com o novo pródigo?

Pelo nosso histórico de acreditar sempre em mitos e salvadores da pátria, é possível. Nossa memória política é deficiente, só dura até um dia após a eleição.

A questão é o outro filho- (o eleitor que pensa): que acreditou nele, votou para fugir de Lula;  viu todas as promessas rasgadas, e agora ainda lhe pedem festas? Talvez, o Sen.Alesandro Vieira (SE) tenha razão em desnudar o novo santo agostinho: “Será que agora o Temer passa a governar também? Será que vai redigir cartinha explicando mansões e rachadinhas? Vai vendo Brasil! Quem votou para ‘mudar tudo isso aí’ faz o que? Espera cartinha para baixar o preço da gasolina?”, escreveu.

O tempo dirá. E, o inquérito das fake news vai continuar, depois da conversa “cordial” de Bolsonaro com o ministro Alexandre de Moraes e da visita de ontem do PGR Aras e o ministro da justiça?

É um “fruto” do arrependimento o seu possível engavetamento ou andar de tartaruga daqui pra frente? Bolsonaro vai comparecer para ser ouvido pela PF, ou o ministro vai dispensar? Se chamado, vai atender?

Como vivemos “num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” (Jorge Ben Jor), tudo é possível.

Auremácio Carvalho é advogado.

 

 

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